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Gent do “W-4-1” é a surpresa belga que pode fazer história na Champions

André Rocha

25/11/2015 00h20

O 3-2-4-1 do Gent que surpreende abrindo o jogo com os alas-pontas e tenta criar superioridade no meio-campo para acionar o centroavante Depoitre.

O 3-2-4-1 do Gent que surpreende abrindo o jogo com os alas-pontas e tenta criar superioridade no meio-campo para acionar o centroavante Depoitre (Tactical Pad).

O campeão da Bélgica e líder da atuação edição da Jupiler Pro League, foi feliz no sorteio da Liga dos Campeões ao cair no acessível Grupo H com Zenit, Valencia e Lyon. Sem favoritos absolutos, a chance de ao menos fazer jogos parelhos e buscar uma vaga na Liga Europa era real.

Mas o Gent quis e fez mais. Empate heróico em 1 a 1 na estreia contra o Lyon com um jogador a menos e o goleiro Sels defendendo pênalti de Lacazetti. Derrotas para o Zenit e Valencia fora e duas vitórias seguidas, sobre o próprio time espanhol e Lyon.

Segunda colocação, só atrás do time de Hulk, absoluto com 100% de aproveitamento e liderança garantida. Exatamente o adversário na rodada final, em Gante, cidade de não mais que 250 mil habitantes. Sonho vivo, até por um possível relaxamento dos russos no Jules Ottenstadion. E a surpresa não vem só da posição na tabela.

O Gent é uma das raras equipes na Europa a ainda atuar com três zagueiros – sem contar o mutante Bayern de Guardiola. Mas a proposta não é de ferrolho. Pelo contrário, demonstra coragem. Claramente a ideia do técnico Hein Vanhaezebrouck é conseguir a superioridade no meio-campo e chegar ao ataque em bloco.

Foi assim no Stade Gerland, em Lyon, sediando pela última vez uma partida de Liga dos Campeões. Depois da pressão inicial e do gol do time da casa logo aos sete minutos de jogo, marcado por Jordan Ferri, o Gent se impôs no jogo.

O sistema tático é inusitado: um 3-2-4-1 que tem o "W" do antigo "WM". Ou seja, três zagueiros e dois volantes. Mais uma linha de quatro e um atacante. Desenho que ajudou a controlar a posse de bola (62%) e deu amplitude com os alas espetados Foket e Saief buscando o fundo para acionar o centroavante Depoitre. O volante brasileiro Renato Neto e o capitão Sven Kums fazem a saída de bola e empurram os meias Dejaegere e Milicevic, que se aproximam do ataque.

O único problema em Lyon era a solidão do ganês Nana Asare, zagueiro pela esquerda que precisava sair para o confronto com Valbuena e o brasileiro Rafael, ex-Manchester United. Por isso as oito finalizações contra cinco nos primeiros 45 minutos.

Mas a do meia suíço Milicevic foi tão precisa quanto inusitada. Cobrança de falta, três companheiros fizeram uma barreira à frente da bola, de costas para o batedor. De repente partiram na direção do goleiro, que se distraiu, assim como os adversários. O goleiro português Anthony Lopes, talvez desconsertado, acabou aceitando. Empate mais que oportuno.

No segundo tempo, pressão dos franceses, até pela necessidade. De início, bem coordenada, com movimentação e presença na área adversária. Depois das substituições, desordenada e desesperada, especialmente nos minutos finais.

O Gent desfez o trio na defesa e se recompôs com uma linha de quatro na retaguarda ao trocar Dejaegere pelo brasileiro Rafinha, que foi para a zaga. Se resguardou com paciência e tentou prender a bola na frente. No final, administrava o empate que parecia satisfatório com a Liga Europa na mira.

Mas a troca de Deproite por Kalifa Coulibally, nitidamente um recurso para ganhar tempo, deu ao Gent seu herói. No último lance, cobrança de escanteio e o atacante, nascido em Mali, mesmo todo atrapalhado, mandou para as redes. A décima finalização do time belga, contra o dobro do Lyon, decretava a vitória improvável. Festejada como um título.

A "zebra" fica a uma vitória, ou até empate, do sonho. Surpreendendo com seu "W-4-1" e a jogada ensaiada fora do padrão para ser o estranho no ninho entre os gigantes no mata-mata da Champions. Nunca pareceu tão possível.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.