PUBLICIDADE
Topo

Muricy Ramalho está resfriado

André Rocha

21/02/2016 08h44

Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

O técnico adentra a sala de imprensa. Aparenta cansaço, seca o suor do rosto, olhar cabisbaixo. Reclama dos muitos problemas do seu time, mas com um olhar distante. Como se fosse comentarista de rádio ou TV, sem o poder de interferir diretamente no futebol da equipe.

A imagem é de um pai de família chegando exausto do trabalho, reclamando das dificuldades, da vida dura, do estresse, da saúde. Mas com o conforto de um salário muito acima da média brasileira.

Zero questionamento, ou poucas interrogações. Porque Muricy Ramalho exerce um incrível poder de sedução, quase hipnótico, sobre boa parte de torcida, imprensa, dirigentes. Seja no São Paulo, onde foi tricampeão brasileiro, Santos. Internacional ou agora no Flamengo.

Talvez seja o jeito simples e direto de se comunicar, sem terno ou grife nas roupas. O estilo ranzinza e exigente que habita o imaginário popular como a referência de treinador que não perde o controle do vestiário e faz os jogadores trabalharem. Sabe a hora de ser duro e de dar carinho.

Certamente os títulos no currículo. No país que só valoriza o resultado final, Muricy um dia soltou a frase que encantou os imediatistas que analisam placares e tabelas e também o torcedor que só quer ganhar, não importa como, e tripudiar do rival: "Quem quiser espetáculo que vá ao Teatro Municipal".

Ele andou mudando o discurso. Depois da aula do Barcelona de Guardiola em 2011, passou a usar o mantra da posse de bola e do jogo bonito. Mas no Santos e no São Paulo nitidamente faltou método para fazer a equipe assimilar uma proposta de jogo complexa, que requer compactação dos setores, um plano de circulação da bola até resolver no último terço do campo.

Muricy normalmente opta pelo mais simples. No São Paulo tricampeão brasileiro, força defensiva e no jogo aéreo, troca de passes só até encontrar o pivô – Aloísio Chulapa ou Borges – que girava para finalizar, preparava para os companheiros ou cavava a falta para Rogério Ceni cobrar. O que convencionou-se chamar de "Muricybol".

Não funcionou no Palmeiras de 2009, líder absoluto do Brasileiro que viu o Flamengo campeão e sequer conseguiu vaga na Libertadores do ano seguinte. No Fluminense e no Santos, o futebol baseado na defesa sólida e no talento do craque. Bola no Conca. Deixa que o Neymar decide.

Mais uma conquista nacional que rendeu convite para a seleção. Depois a Libertadores tão sonhada. No apito final, o desabafo: "Eu mereço esse título", "Eu melhoro os caras". Mas Muricy pode usar o tom arrogante. Nas coletivas, com respostas duras aos repórteres – incluindo preconceito com profissionais do sexo feminino.

Postura bem diferente no contato com os formadores de opinião, no estúdio. Ali os sorrisos aparecem e o discurso é moderado, leve. Até porque não há crítica, apenas fascínio. E blindagem.

Este que escreve nunca foi "vítima" de Muricy Ramalho. Uma única entrevista, do estúdio do Esporte Interativo no programa "Melhor Futebol do Mundo", o técnico em Barcelona. Depois um encontro rápido num seminário. Nada contra a pessoa.

Só o incômodo com a isenção de críticas. Mesmo quando o seu time mostra um futebol pobre e Muricy só faz uma substituição, como na derrota do Flamengo para o Vasco no último domingo. Nenhum questionamento real, apenas a compreensão pelo início de temporada.

Nenhuma pergunta sobre a incoerência de tentar implementar um plano de jogo inspirado no Barcelona sem as peças com características necessárias. A maioria acelera, como inserir as pausas?

Na prática, o time é armado em função de Emerson Sheik, que sai da ponta para dentro e tenta armar as jogadas. Abandona o lado esquerdo, ocupa o espaço de Mancuello e sacrifica o lateral Jorge. Tudo isso sem a resposta técnica de quem não mostra consistência nas atuações desde 2012.

Ninguém cobra. Porque "aqui é trabalho, meu filho!" Ainda que tenha saído do Santos acusado por alguns corajosos repórteres e a parte menos encantada da torcida de dar poucos treinos e muitos rachões.

Também não aproveitar a base, um pecado no alvinegro praiano. Praticamente um "bullying" em Felipe Anderson, que depois partiu para a Lazio e chegou à seleção olímpica em pouco tempo. Algo que sequer é lembrado na Gávea quando Muricy afirma que pretende usar os garotos campeões da Copa São Paulo.

Oxalá ele, de fato, esteja mesmo diferente. Fica aqui o benefício da dúvida, ainda. Este texto vai ao ar antes do Fla-Flu em Brasília para que não soe como oportunismo em caso de derrota. Análise de resultado você não vê por aqui.

Ah, sim! O título do post. Nenhuma pretensão de emular Gay Talese ou se arriscar no jornalismo literário. Muito menos atrair cliques pela "charada". Só que o resfriado pode ser a próxima justificativa dos fãs de Muricy Ramalho para um revés ou fraca atuação do Flamengo. Vai saber…

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.