Blog do André Rocha

Cuca, o técnico “híbrido” e complexo que volta ao Brasil

André Rocha

Cuca

É justo e compreensível o frisson causado pela sinalização de Alexis Stival, o Cuca, de que está voltando ao futebol brasileiro depois de duas temporadas na China.

O técnico colecionou bons trabalhos no país, desde a redenção do Goiás em 2003, passando pelo futebol vistoso do Botafogo em 2007, o ''milagre'' com o Fluminense dois anos depois e a grande conquista da carreira, a Libertadores com o Atlético Mineiro em 2013.

Encanta pela intensidade, por adiantar a marcação e nunca abdicar do ataque. Lembra o estilo de Marcelo Bielsa, embora o treinador brasileiro sempre cite Rubens Minelli e Luiz Felipe Scolari como principais referências. Escola gaúcha, do sul que tangencia Argentina e Uruguai. Futebol ofensivo.

Não necessariamente moderno. Porque com a revolução de Pep Guardiola e as respostas de José Mourinho, Jurgen Klopp e Carlo Ancelotti, alguns conceitos de Cuca, eficientes num passado não tão recente, ficaram para trás.

Como encaixe da marcação. Estudo do adversário, ajustes para garantir a sobra na defesa e os laterais que Cuca prefere ofensivos não fiquem presos no combate aos ponteiros. Para isso usa volantes marcadores, quase zagueiros – como Pierre e Leandro Donizete no Galo. Ou um lateral mais fixo  – Luciano Almeida pela esquerda no Botafogo, por exemplo. Cada um persegue seu ''alvo'' até o final da jogada. Foco no oponente e não na bola e no espaço. Marca correndo.

Uma organização para defender, outra para atacar. Na transição, normalmente uma ligação direta para reordenar o time. Para isso, uma referência na frente para disputar e tentar reter a bola  – Fred e Jô.  Valoriza o rebote, de preferência perto da área do rival.

Assim Ronaldinho funcionava. A construção do jogo apressada permitia que o camisa dez ficasse adiantado e recebesse a bola para definir com passe ou finalização. Também jogadas ensaiadas, verticais até demais, como a cobrança de lateral de Marcos Rocha diretamente na área.

A essência do ''Galo Doido'', que na Libertadores sofria fora de casa pela falta de compactação e controle de jogo, mas compensava no Independência pelo volume de jogo sufocante, além da persistência inquebrantável e, claro, as mãos de ''São'' Victor.

Tudo ruiu no Mundial Interclubes diante do Raja Casablanca, que marcou com linhas próximas e pulverizou a retaguarda do campeão sul-americano com rapidez e mobilidade, mesmo sem qualidade técnica. Uma aula tática e estratégica.

Cuca partiu para o Shandong Luneng. Salário milionário, alto investimento em contratações e meta ambiciosa: conquistar a Liga dos Campeões da Ásia. Frustração com o time de Junior Urso, Montillo, Aloisio, Diego Tardelli e Vagner Love.

Mas na passagem pelo Brasil, uma equipe mais compacta no Engenhão contra o Botafogo de René Simões no início de 2015. Algo próximo de uma marcação por zona, apesar de alguns encaixes, e um pouco mais de cuidado com a posse de bola. Ficou a impressão de que o técnico estava atento à nova maneira de jogar no planeta. Infelizmente não foi possível ver mais do seu time.

Agora está de volta. Pretendia um período de estudos na Europa, mas o interesse do Fluminense, que também negocia com Levir Culpi, fez Cuca mudar de ideia. Até porque pelo imediatismo por aqui outros pretendentes não devem demorar a aparecer.

Difícil prever que profissional retorna ao futebol brasileiro. O técnico ''híbrido'', com intensidade e vocação ofensiva, mas anacrônicos encaixes individuais e ligações diretas. Ou o mais atual que este blogueiro viu no Engenhão. O mesmo personagem complexo, inquieto e estudioso, porém preso a algumas superstições e que deixou a fama de azarado para trás com o título continental.

Quem vai pagar para ver?