PUBLICIDADE
Topo

Um agradecimento a Eurico Miranda e Rubens Lopes

André Rocha

04/03/2016 09h02

O Bom Senso F.C. foi criado em 2013 por conta da divulgação do calendário do ano seguinte achatado pela Copa do Mundo que revoltou os atletas e criou lideranças. Conseguiu avanços, mas esbarra nos estatutos e regulamentos blindados da CBF.

Os 7 a 1 despertaram quem acreditava que o talento brasileiro seria capaz de resolver sempre todos os problemas estruturais. Um Neymar para cada Marin. A Alemanha mostrou que não é mais assim. Há, porém, os que ainda fingem não ver e tratam como acaso.

Os duros golpes na CBF via justiça americana criaram um ambiente favorável a mudanças. A entidade que cuida da seleção e nem tanto de seus clubes parecia sem comando. Mas a presença da figura decorativa do Coronel Nunes, inclusive representando o futebol brasileiro na eleição de Infantino na FIFA, é um tapa na cara de quem sonha com algo alinhado, ao menos na organização, aos principais centros do planeta.

Cenário desanimador? Nem tanto. Porque o retorno de Eurico Miranda à presidência do Vasco e sua notória aliança com Rubens Lopes, presidente da FERJ, fizeram um bem enorme ao futebol nacional.

Absurdo? Nem tanto. Porque jogaram o time mais popular do país nas cordas e escancaram o que há de mais nefasto na estrutura federativa construída nos tempos da ditadura militar e que não pode ser a regra em 2016.

Os dois últimos atos são simbólicos: primeiro conseguindo influenciar o veto da CBF à utilização do Mané Garrincha pelo Flamengo no Brasileiro, depois agendando partidas do Campeonato Carioca para provocar conflito de datas com a Liga Rio Sul Minas.

Primeira Liga criada muito por conta das desavenças entre a dupla Fla-Flu e a FERJ desde o ano passado. Rubinho e Eurico contavam com o isolamento dos times cariocas, que ficariam de fora da disputa por serem "o problema". A união garantiu a realização da primeira edição, ainda que em caráter amistoso.

Mais que isso, gerou a proposta da Liga Nacional e de mudanças significativas da CBF, como sistema eleitoral, transparência nas contas e na gestão. Com a arbitrariedade, provocou a ira dos torcedores, que fomentaram o Movimento Futebol Limpo nas redes sociais.

Para azar de FERJ e CBF, os corintianos entraram na briga por conta de pautas paralelas, mas não menos importantes: ingressos caros, jogos às 22h e problemas entre o poder público e torcidas organizadas. As duas maiores torcidas mobilizadas, o horror para qualquer dirigente.

Um dos principais alvos de protestos é o Maracanã sem jogos antes de ficar à disposição do COI. Com show dos Rolling Stones, não bola rolando. Muito por conta dos problemas da Odebrecht para manejar financeiramente a concessionária que administra o estádio. Mas também pelo claro desinteresse da federação em intervir na questão. Afinal, o aliado tem São Januário para mandar seus jogos.

O Flamengo não é inocente, nem vítima. Erra ao não ter o seu estádio, nem ter investido na recuperação de algum outro no Rio de Janeiro para servir como opção no ano dos Jogos Olímpicos que sabia que seriam disputados na sua cidade desde 2008. Peca igualmente ao não aceitar divisão mais equilibrada das cotas de TV, que a médio e longo prazo fortaleceria a maioria para se tornar independente da CBF.

Ainda assim, diante de tantos absurdos da entidade que deveria ser mediadora e defender os interesses dos clubes, conseguiu um movimento em torno de si que em outros tempos seria inimaginável. Pode dar em nada e tudo voltar à sua anormalidade secular. Mas hoje há o que faltou sempre: agenda e pauta de propostas. Acima de tudo, a indignação com voz.

Por isso devemos agradecer a Eurico Miranda e Rubens Lopes. Sem os ecos do passado que emanam da dupla não haveria sequer esperança no futuro. Obrigado!

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.