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A Muricy o que é de Ramalho e a Bandeira o que é De Mello

André Rocha

20/03/2016 20h25

Muricy_Bandeira

O Fla-Flu no Pacaembu repetiu 1942 e terminou sem gols. Muito pela imprecisão nas finalizações, mas também por conta dos trabalhos de Muricy Ramalho e Levir Culpi precisando de maturação.

No lado rubro-negro, o desgaste pelas viagens é notório. A questão não é o cansaço em si. Vale pouco o argumento surrado de que "exausto fica o trabalhador que pega o trem lotado de manhã cedo".

Fisiologistas e médicos alegam que o "avião nas costas" e a posição nas poltronas de aeroportos e aviões dificultam a circulação do sangue e, consequentemente, a recuperação. Esgotamento em relação ao adversário que viajou menos.

Argumento válido de Muricy Ramalho. Responsabilidade da gestão do clube, desde o anúncio do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos. 2008. Gestão Márcio Braga, substituído por Delair Drumbosck em 2009. Depois Patrícia Amorim.

Bandeira de Mello desde 2013. Ninguém atuou efetivamente para encontrar um estádio alternativo na cidade para 2016. Houve tempo de sobra para recuperar, ampliar, cuidar do entorno e do acesso.

Mas a diretoria de vanguarda nas finanças, no equacionamento das dívidas, preferiu a saída populista do "Maraca é nosso" ou "Flamengo enche qualquer estádio no país". De fato, a quinta maior torcida da cidade de São Paulo contribuiu com a maioria dos 30 mil presentes que proporcionaram a maior renda e o maior público do Carioca – uma bizarrice em si.

No entanto, o futebol de intensidade requer preparação e recuperação adequadas. Não basta investir na melhora da estrutura do Ninho do Urubu se o elenco vive em hotéis e aviões. Compete pouco. E a gestão Bandeira de tantos acertos erra mais uma vez no futebol.

Na quarta, muito do vexame em Aracaju foi pelo cansaço mental. Ou falta de concentração, cada vez mais importante – leia mais AQUI. Primeira fase, jogo de ida da Copa do Brasil, festa em Sergipe. Oito minutos, expulsão de Elielton, capitão do Confiança.

"Off". O Fla nitidamente se desconectou da disputa pela certeza de que bastaria jogar naturalmente, golear e evitar o jogo de volta. Preguiça, chances cristalinas desperdiçadas. A bola puniu no belo gol de Everton.

A pelota não tem sido generosa com o time da Gávea também pelos equívocos de seu treinador. Muricy quer linhas adiantadas e compactas. Posse de bola e troca de passes com paciência até o momento certo de dar profundidade às jogadas.

Defesa avançada com jogadores lentos e/ou mal posicionados que cedem espaços às costas e oportunidades aos adversários? Posse e calma com peças que só aceleram, pensam pouco e erram muito? Só não se desmanchou no Pacaembu no primeiro tempo porque o Flu de Levir Culpi ainda precisa de muitos ajustes, inclusive nas finalizações.

Flagrante da defesa do Fla avançada e mal posicionada, deixando espaços às costas e falhando na tática do impedimento (reprodução TV Globo).

Flagrante da defesa do Flamengo a avançada e mal posicionada, deixando espaços às costas para dois atacantes do Flu e falhando na tática do impedimento (reprodução TV Globo).

Por fim, a pergunta da temporada até aqui: Emerson Sheik será mesmo a referência do time, o jogador que sai da esquerda para dentro tentar articular o jogo ou finalizar?

O camisa onze tem personalidade e, pelo visto, exerce liderança. Mas erra demais nas tomadas de decisão e tecnicamente não é virtuoso para tamanha responsabilidade. Chama o jogo, pede a bola, não se esconde. Virtudes que adiantam pouco se o acabamento não é preciso. Tenta armar o time até por Mancuello…e o Flamengo trava.

Muricy é só elogios, permite que seja o dono do vestiário e raramente substitui. Aliás, durante a semana em uma das coletivas o treinador elogiou a ideia da FIFA de acrescentar uma substituição. Mas mesmo com todas as queixas de cansaço nem sempre faz as três mudanças, prática que vem de muito tempo. Difícil entender.

Assim como é difícil vislumbrar um futuro na temporada para o Flamengo itinerante. Exaurido e mal pensado, dentro e fora de campo.

Sem blindagem. Dando a Muricy o que é de Ramalho e a Bandeira o que é De Mello.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.