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Muricy Ramalho não entendeu a essência do Barcelona

André Rocha

07/05/2016 10h16

Foram 12 dias em Barcelona e a volta exaltando a estrutura do clube catalão, a filosofia seguida desde as divisões de base e o estilo baseado na posse de bola.

Muricy Ramalho chegou ao Brasil se dizendo renovado fisicamente depois da saída do São Paulo por conta de problemas de saúde e pronto para colocar em prática tudo que aprendeu.

O Flamengo comprou a ideia. O treinador parecia o tiro certo de uma diretoria acusada de ajustar as finanças, mas falhar nas decisões sobre o futebol. Para minimizar as chances de erro, contratou meio-campistas reconhecidamente com bom passe para executar o 4-3-3 típico do Barca, fortemente influenciado pela escola holandesa.

Quase quatro meses depois, o Fla fracassou em resultados na Copa Sul-Minas Rio, no Campeonato Carioca e na Copa do Brasil já acumula derrotas para Confiança e Fortaleza, times da Série C nacional.

O pior, no entanto, é não obter resposta em desempenho. Não faltaram justificativas: pouco tempo para treinar, excesso de viagens de um time sem estádio. Todas compreensíveis num clube que não se planejou para ficar sem Maracanã e Engenhão.

Mas entre a eliminação para o Vasco na semifinal estadual e o revés em Fortaleza foram dez dias de descanso e preparação. E novamente o rendimento foi insatisfatório, com um time engessado, sem criatividade e exposto defensivamente. Evolução zero.

Muricy insiste que o trabalho é bom e falta aproveitar as oportunidades criadas. Mas o campo e a bola gritam: o técnico viu, mas não entendeu o Barcelona.

Porque a semente de Rinus Michels florescida por Johan Cruyff e resgatada em toda sua beleza por Pep Guardiola não se resume à valorização da bola e proposta ofensiva. O essencial neste modelo é a maneira com que se cria os espaços.

O jogo de posição, em resumo, se dá com a troca de passes bem coordenada desde a defesa até que pelo menos oito dos dez jogadores de linha ocupem o campo de ataque. A ideia é que o adversário fique bem longe da sua área e corra tanto atrás que esteja exaurido física e mentalmente para atacar.

Só que para transformar isso em gols e vitórias a equipe precisa criar brechas, já que o jogo se dá em apenas metade do campo. Há duas maneiras: pela jogada diferente – drible ou passe genial – e pela movimentação das peças arrastando marcadores até abrir o buraco.

E a história mostra que se a ideia é criar esse espaço, o ideal é que isso parta do próprio time que propõe. Como?

Ilustração Fanfic

Ilustração Fanfic

Quem lembra do jogo "Resta Um"? Um tabuleiro de peças em que a proposta é fazer movimentos como no jogo de damas, "comendo" até que reste apenas uma. Sò que para começar é preciso que um dos espaços esteja vago.

No futebol seria pouco inteligente entrar com um homem a menos, então o mais lógico é agrupar os jogadores de forma que haja um buraco a ser preenchido de forma surpreendente.

No Barcelona desde Guardiola quem cria essa brecha é Messi. Inicialmente como "falso nove" que saía da zona próxima aos zagueiros rivais, recuava e permitia a infiltração dos pontas em diagonal ou de um meia chegando de trás. No atual o argentino é o ponta armador pela direita que vem por dentro, abre o corredor para Daniel Alves ou Rakitic e também pode trocar com Suárez.

A história mostra outros jogadores executando a função, como Hidegkuti na Hungria de 1954, Cruyff na Holanda de 1974, Totti na Roma de Spaletti em 2007…Até Neto no Corinthians campeão brasileiro de 1990.

Mas não só o "falso nove". Quando Zagallo foi recuado na seleção brasileira em 1958 e nasceu o 4-3-3 consolidado em 1962, o centroavante Vavá pôde chegar um pouco mais para a esquerda e abriu para o fenômeno Pelé aparecer pelo centro.

A mesma ideia com a lendária seleção de 1970: Rivellino como "falso ponta" armando no meio com Gerson. Tostão, em tese o centroavante, abrindo pela esquerda, Pelé entrando ou Jairzinho penetrando na diagonal.

No mesmo Flamengo, um exemplo emblemático: o time de Zico multicampeão nos anos 1980 com todos se movimentando, Tita e Lico deixando os corredores para Leandro e Júnior, Nunes circulando pelos flancos para que o craque e camisa dez fizesse a diferença.

Questão de lógica: você concentra jogadores num setor para ter vantagem numérica e deixar outro desocupado para que ali outros possam aparecer e desarticular a marcação.

No time de Muricy, não há a jogada diferente nem a mobilidade. Marcelo Cirino e Emerson, depois Fernandinho, não são ponteiros habilidosos, que abrem defesas na base do drible. Guerrero até tem técnica e inteligência, mas não a ponto de atuar como "falso nove". Seria um desperdício, inclusive.

Então o próprio time se anula num 4-3-3 estático, no qual os pontas tapam os espaços dos laterais e o centroavante fica no centro esperando a bola que chega pouco e não deixa os meias aparecerem. Todos perdem.

Quando surgiu a ideia de tirar um ponteiro e encaixar Alan Patrick com Mancuello na articulação partindo da esquerda ficou a impressão de que o problema poderia ser solucionado. Porém faltou conteúdo ao técnico.

Porque Mancuello seguiu aberto pela esquerda, ao invés de procurar o centro e no setor aparecer Jorge no apoio, o próprio Alan Patrick, a inversão de Cirino ou a aparição de Guerrero por ali, como no Corinthians de 2014 com Mano Menezes – o melhor momento do peruano no futebol brasileiro.

Contra o Vasco em Manaus, a entrada de Gabriel sepultou qualquer chance de mudança. Depois Fernandinho. E o time travado em si mesmo, avançando as linhas sem criar e expondo uma retaguarda frágil, hesitante. Aparentemente sem saída.

Porque Muricy foi a Barcelona, mas não assimilou o essencial.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.