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Revanche nos olhos não pode virar sede de vingança para Atlético de Madrid

André Rocha

25/05/2016 07h42

Simeone Atletico

O melhor sistema defensivo da Europa. Apenas 18 gols sofridos em 38 rodadas do Campeonato Espanhol. Só sete na Liga dos Campeões, sendo quatro deles contra os gigantes Barcelona e Bayern de Munique.

Concentração absoluta, força mental para jogar sem a bola e coordenar linhas compactas, coberturas, dobras de marcação, pressão sobre o homem da bola. Todos participando com entrega total. Uma incrível capacidade de competir durante os 90 minutos.

Vimos isso durante toda a temporada do Atlético de Madrid de Diego Simeone. Agora imagine tudo isso com uma preparação de quase vinte dias – desde a derrota por 2 a 1 para o Levante na penúltima rodada do Espanhol que acabou com qualquer chance de disputar o título nacional.

Toda a atenção voltada para um jogo. O jogo. A final da Liga dos Campeões no Giuseppe Meazza em Milão. A terceira da história do clube. A segunda contra o maior rival do próprio país, da própria cidade. Dois anos depois de perder a primeira na prorrogação.

Ou no golpe letal de cabeça de Sergio Ramos nas esperanças de uma temporada mágica dos colchoneros, com o título da liga superando dois gigantes. No lance derradeiro do tempo normal no Estádio da Luz.

Talvez Simeone tenha torcido para enfrentar o Real Madrid e não o Manchester City na final continental. Porque o ineditismo do inglês transferiria um incômodo favoritismo pelas experiências recentes e por ter eliminado o atual campeão e o time de Guardiola.

Contra os merengues, "Cholo" deve colocar revanche nos olhos de seus comandados. Um firme propósito de deixar a vida em campo se for preciso. Todo suor, toda atenção, toda paixão. A maior resistência possível de um exército.

Só não pode transformar esse doping emocional em sede de vingança e se perder na truculência punida com cartão vermelho e uma desvantagem numérica que seria fatal diante de rival tão poderoso.

Na lembrança, os 2 a 1 do Barcelona no Camp Nou pelo Espanhol com o Atlético cumprindo atuação perfeita na tática e na estratégia e, mesmo levando a virada, fazia jogo igual até que as expulsões dos pilhados Filipe Luís e Godín pulverizassem qualquer chance de reação.

Simeone exige que seus soldados sejam competitivos, mas também saibam fazer "jogos mentais" com provocações, intimidando com um jeito sul-americano. Não é bonito nem nobre. Mas legítimo se limitado às regras do jogo.

Para sábado, a estratégia não deve fugir das linhas de quatro muito próximas, quase chapadas. Torres e Griezmann à frente, mas colaborando sem a bola. Alternando pressão no ataque e proteção à meta de Oblak com todos no próprio campo.

Na transição ofensiva, muita velocidade, toques práticos, rápidos e verticais. Como no contragolpe que terminou no gol de Griezmann sobre os bávaros na Allianz Arena. Ou mesmo no último duelo contra o Real Madrid: 1 a 0 no Santiago Bernabéu. Também Griezmann. Bola roubada, saída rápida, o francês acionou Filipe Luís e apareceu na área para finalizar.

O desafio será fugir da marcação pressão sufocante que Zidane prepara nos treinos. A saída de bola terá que ser precisa. O Real marcou dez gols em contra-ataques na temporada – sete no Espanhol, três na Champions. O Atlético só cinco, a metade. Mas o contexto dá o contragolpe a Simeone.

A ideia do técnico francês é roubar a bola perto da meta rival para acelerar e acionar rapidamente o trio BBC que deve ter Cristiano Ronaldo no sacrifício e alternando com Benzema no centro do ataque. A jogada aérea com o próprio craque português, o Bale de nove gols de cabeça na temporada e, claro, o "carrasco" Ramos é arma importantíssima também.

É disputa sem favoritos. O Real tem mais talentos desequilibrantes, a confiança da incrível recuperação no Espanhol com 12 vitórias seguidas e a serenidade de quem venceu o clássico decisivo em 2014.

Já o Atlético virá com toda a alma e o fogo no olhar. O perigo é ser consumido pelas chamas.

(Estatísticas: Whoscored)

 

As prováveis formações para a final em Milão: Atlético no 4-4-2 compacto e concentrado no plano de jogo, Real no 4-3-3 que pode alternar Benzema e Cristiano Ronaldo para poupar energias do português no sacrifício (Tactical Pad).

As prováveis formações para a final em Milão: Atlético no 4-4-2 compacto e concentrado no plano de jogo, Real no 4-3-3 que pode alternar Benzema e Cristiano Ronaldo para poupar energias do português no sacrifício (Tactical Pad).

Leia também: Com Zidane, Real Madrid volta a transitar bem entre Guardiola e Mourinho

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.