Blog do André Rocha

Corinthians e Cristóvão Borges: nada será como antes

André Rocha

A opção mais óbvia era Mano Menezes. Disponível no mercado e junto com Tite alternando no comando do Corinthians desde 2008, com o hiato dos dois meses de Adilson Batista em 2010. Mas houve desgaste na saída em 2014 e foi o primeiro nome rechaçado com a ida de Tite para a seleção brasileira.

Para evitar constrangimento parecido com o do Cruzeiro, descartado publicamente por Jorginho e Ricardo Gomes, o clube fez sondagens. O velho recurso de conseguir um interlocutor que consulte informalmente antes da proposta oficial. Assim foi com Eduardo Baptista, Roger Machado e Fernando Diniz, que preferiram seguir com seus projetos profissionais. Sylvinho, amigo do presidente Roberto de Andrade, decidiu continuar aprendendo na Internazionale e nos cursos da UEFA.

Segundo o mandatário do clube, o segundo procurado foi Cristóvão Borges. Demitido do Atlético Paranaense em março, chega ao Corinthians que o acolheu como jogador entre 1986 e 1987. Revelado pelo Bahia, atuou por mais tempo em Fluminense, Grêmio e Portuguesa. Não dá para chamar de identificação, apesar de um gol decisivo sobre o rival Palmeiras na semifinal do Paulista de 1986.

Como técnico, a rigor, os trabalhos de Cristóvão desde a sucessão forçada de Ricardo Gomes no Vasco em 2011 não o credenciam a substituir o melhor técnico do país no atual campeão brasileiro. É uma aposta.

No clube cruzmaltino, a melhor combinação entre desempenho e resultados. Inclusive na Libertadores de 2012, com eliminação para o próprio Corinthians de Tite nos detalhes: lendária defesa de Cássio na finalização de Diego Souza e gol salvador de Paulinho. Depois Bahia, Fluminense, Flamengo e Atlético-PR.

Em todos foi possível perceber o trabalho com conceitos atuais, como compactação, posse de bola, movimentação e intensidade. Chamou atenção também porque, exceto no Vasco e com Milton Mendes no clube paranaense, recebeu terra arrasada em termos táticos de seus antecessores – Joel Santana no Bahia, Renato Gaúcho no Fluminense e Vanderlei Luxemburgo no Flamengo. A resposta imediata foi positiva.

No entanto, o desempenho foi se desgastando com o tempo. Fora de campo, na visão de pessoas que cobriam o dia-a-dia dos clubes, em alguns momentos faltou pulso na gestão dos grupos. Mesmo sendo querido pelos atletas. No Flu, por exemplo, saiu criticado por ser muito permissivo com a liderança de Fred.

Na execução do plano de jogo faltou maturidade para adaptar os conceitos à realidade brasileira. Longas viagens, altas temperaturas e o pouco tempo para treinar não eram dosados com uma proposta mais flexível, alternando marcação pressão com linhas adiantadas e sistema defensivo mais postado jogando de forma reativa quando necessário. Os times cansavam.

Por isso a fragilidade defensiva que virou seu ponto fraco. Com a retaguarda em linha e avançada é obrigatório diminuir o espaço e o tempo de raciocínio do adversário com a bola. Não conseguiu e viu suas equipes sofrerem goleadas que minaram a confiança.

A boa notícia é que essa dinâmica já foi automatizada por Tite. Em vez de construir do zero, a missão será apenas dar sequência a um trabalho estruturado, como deixou claro o interino Fabio Carille na coletiva depois da vitória por 3 a 1 sobre o Botafogo que entrega o time no G-4 ao novo comandante.

Taticamente não deve fugir do 4-2-3-1 dos últimos jogos com Guilherme na articulação central. A missão é melhorar a dinâmica ofensiva no último terço do campo. Sem um típico centroavante, os muitos cruzamentos das últimas partidas não parecem a melhor solução. É possível trabalhar mais as triangulações, tabelas e infiltrações em diagonal.

Cristóvão não é Tite. Técnico e clube sabem bem disso. Nada será como antes. O futuro é uma grande incógnita. Mas com respaldo da direção, evolução e maturidade do treinador em um cenário mais favorável. é possível seguir competitivo em 2016.