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A melhor geração do Chile e a indignação que separa Messi de Maradona

André Rocha

27/06/2016 02h29

A conquista da Copa América Centenário um ano depois do primeiro título oficial do Chile ganha um peso diferente por afirmar o trabalho iniciado por Marcelo Bielsa, amadurecido e afirmado por Jorge Sampaoli e que segue com Juan Antonio Pizzi. Todos argentinos. Os três alinhados ao que há de mais atual no futebol do planeta.

A seleção chilena oscila, mas continua praticando um jogo coletivo, de execução de funções. Na final em Nova Jersey, os alas Isla e Beausejour atuaram com laterais, atentos às suas atribuições defensivas.

Com a expulsão de Marcelo Díaz, volante que qualifica a saída de bola e protege a retaguarda, a equipe repaginou-se num 4-4-1. Já variava do 4-3-3 para o 4-4-2 com o recuo pela direita de Fuenzalida.

Muita intensidade, leitura de jogo, meias como Aránguiz e Vidal que defendem e atacam. A melhor geração chilena que sabe compensar a zaga historicamente mais baixa e não se desmancha em jogos decisivos.

Ainda conta com um grande goleiro: Bravo, companheiro de Messi no Barcelona. Pegou a cobrança de Biglia que encaminhou a conquista, justa pelo crescimento da reta final e o massacre sobre o México nas quartas.

Também porque a Argentina falhou de novo. Terceiro revés seguido em decisões. Todos nos detalhes, nenhum nos 90 minutos. A segunda derrota nos pênaltis para o Chile.

No Brasil e agora nos Estados Unidos, com incríveis gols perdidos por Higuaín. Nunca saberemos se abrir vantagem nas duas decisões tiraria o peso dos ombros desta geração que sofre pelos 23 anos sem títulos na seleção principal.

E Messi… Difícil criticar. Porque não faltou vontade e comprometimento. Gerardo Martino, assim como Alessandro Sabella, encontrou a maneira de potencializar o talento do melhor do mundo com a camisa albiceleste. Até mesmo quando Rojo foi expulso, numa clara compensação da confusa arbitragem de Heber Roberto Lopes.

Nunca será como no Barcelona, pela filosofia e pelo entrosamento com os companheiros. Questão matemática, de quantidade de treinos e jogos.

O que separa então o camisa dez das conquistas? Destino? Sorte? Tudo muito subjetivo. Na prática, a Argentina se ressente da ausência de um Di María, o melhor coadjuvante, em forma, sem ausências por lesões. Também de um desempenho mais contundente de Aguero.

Mas Messi podia fazer mais. Sim, soa oportunista e focado no resultado final. Não, Maradona não venceu uma Copa América. Mas no que é possível captar do estado anímico dos jogadores em campo há uma diferença clara que separa o melhor de sua geração do outro gênio, este absoluto na idolatria de um povo: a indignação.

Nos melhores e piores momentos de uma carreira errática, Diego Armando Maradona sempre demonstrava um absoluto inconformismo com a derrota. Às vezes extrapolando, como no coice em Batista na derrota para o Brasil em 1982. Ou se rasgando de raiva no pênalti inexistente para a Alemanha que negou o bi mundial em 1990.

É óbvio que Messi é ambicioso e competitivo. Se não fosse a disputa com Cristiano Ronaldo por prêmios individuais e coletivos não seria tão intensa. As lágrimas depois da cobrança que isolou como Baggio em 1994 também nos Estados Unidos são de uma frustração que não tem tamanho.

Então por que não chamar a responsabilidade, se entregar de alma e carne com fome no olhar antes do risco da prorrogação ou dos pênaltis? Nos últimos 20 metros, no tempo extra com todos cansados tirar de dentro, do coração, da última gota de suor, de onde não se explica a arrancada letal, o feixe de luz que derrete as marcações compactas e atentas. O que o diferente é capaz de fazer.

Messi foi criado numa ideia de construção coletiva em Barcelona e não entende que no universo das seleções, sem uma base como a Espanha de Barcelona e Real Madrid e Alemanha de Bayern de Munique e Borussia Dortmund, o lampejo é necessidade básica para superar as muitas adversidades. O atalho para quem se nega a perder.

Lionel falhou. De novo. Melhor para o maior Chile de todos os tempos.

 

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.