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Derrota do vôlei feminino deixa lição: nunca deixar de competir

André Rocha

17/08/2016 09h29

A incrível reação do Liverpool no "Milagre de Istambul" em 2005 se deu em quinze minutos. Depois houve mais 75, os acréscimos e a decisão por pênaltis. O Milan teve chances de vencer, mas mentalmente sempre esteve em condições inferiores depois de ceder o empate.

Porque deixou de competir após fazer três gols e dar um passeio no primeiro tempo, com Kaká deitando e rolando às costas de Xabi Alonso e Gerrard e acionando Crespo e Schevchenko na frente. 3 a 0, fora o baile.

Dançou quando desconcentrou. Por não mais que quinze minutos após a volta do intervalo. Absolutamente humano. Reações como a dos Reds entram para a história por serem tão raras. Por isso os méritos do time inglês são inegáveis.

Natural que os rossoneri, mesmo experientes, esperassem um rival entregue e fosse apenas questão de tempo para administrar a vantagem. Como, por exemplo, o Flamengo de Zico em 1981 contra o próprio Liverpool em Tóquio. Outros tempos.

Não há mais espaço para relaxamento. Ou eles hoje são punidos com mais frequência. Ainda mais em disputas do nível de uma final de Liga dos Campeões. Em qualquer esporte.

Como o vôlei, seja entre homens ou mulheres. No feminino, a seleção brasileira bicampeã olímpica foi surpreendida nas quartas de final pela China que, nas palavras da própria técnica Lang Ping, veio ao Rio de Janeiro pensando em Tóquio 2020.

Massacre brasileiro no primeiro set: 25 a 15. A campanha sem perder sequer um set na primeira fase era uma lembrança mais fresca que os 3 a 0 sofridos para as orientais no Grand Prix há dois meses.

A desconcentração foi nítida, inclusive do torcedor no Maracanãzinho que imaginou um triunfo protocolar. É bem provável que já estivessem pensando na semifinal. Até pela expressão aparentemente conformada de Lang Ping e suas comandadas.

Engano. As chinesas entraram no jogo, encontraram em Natália a fragilidade no passe, apesar da força no ataque, e apostaram na gigante Ting Zhu como o ponto de desequilíbrio. E foi, com 28 pontos.

Sim, as meninas de Zé Roberto reagiram, venceram o quarto set e equilibraram o tie break. Mas o estrago na própria confiança e o "doping" emocional no adversário já eram realidade. A sequência euforia-relaxamento-surpresa-desespero costuma ser devastadora mentalmente. E a China jogou demais, atuação memorável.

Não é regra. No vôlei e em outros esportes há casos de viradas sobre reações. Abrir vantagem, ser surpreendido mas se recuperar. Por isso eventos como Jogos Olímpicos e Liga dos Campeões sempre reservam histórias espetaculares. E é ótimo que elas aconteçam.

Menos para quem se frustra. Como o Brasil que sonhava com o tri em casa e sequer vai disputar medalha. Porque deixou de competir, no corpo e na mente. Que sirva de lição.

Como o Milan aprendeu e venceu o mesmo Liverpool dois anos depois em outra decisão continental. Em Atenas, berço dos Jogos Olímpicos.

 

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.