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O silêncio de Neymar pode ser positivo. Veja outros casos

André Rocha

19/08/2016 12h28

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O blogueiro já adianta: este post não é um gol contra o próprio ofício. O ideal é que a imprensa tenha liberdade e espaço para fazer seu trabalho. Até porque o repórter é apenas um veículo entre o personagem e o público.

Neymar se recusou a atender os jornalistas depois do empate sem gols com o Iraque no Mane Garrincha, o auge das críticas à seleção olímpica. Inclusive por persuadir seus companheiros a não responder sequer os veículos que adquiriram esse direito por contrato nos Jogos do Rio de Janeiro. Voltou a falar após a goleada sobre a Dinamarca, mas novamente ficou em silêncio, apesar da bela atuação contra Honduras.

Difícil precisar as razões. Talvez coerência – se não falou na crise, também não se pronuncia com os muitos elogios agora. Ou está esperando a conquista da medalha de ouro para desabafar contra algo ou alguém.

Não é o melhor dos cenários. O próprio Neymar já se pronunciou sobre essa tensão entre ele e a imprensa. Diz que quer críticas construtivas, mas já devia estar acostumado com essa pressão. A "bolha" em que estrelas como ele vivem, cercada de amigos e bajuladores de ocasião, não ajuda muito.

Na prática, porém, pode ter um efeito positivo. Porque em silêncio é possível se concentrar ainda mais no trabalho, sem maiores distrações. Ainda que seja praticamente impossível ficar alheio a tudo com as informações circulando nas redes sociais.

No futebol há histórias vencedoras de times ou craques que não atenderam a imprensa. Como o "Silenzio stampa" da seleção italiana na Copa do Mundo de 1982. Depois de uma primeira fase com futebol pobre e empates contra Polônia, Peru e Camarões, os jornalistas pegaram pesado nas críticas e entraram até na vida privada, insinuando sobre a orientação sexual de Paolo Rossi e Antonio Cabrini por conta de uma foto.

A solução: silêncio total. Ou quase, com o capitão e goleiro Dino Zoff falando apenas o "extremamente necessário", porém sem maiores diálogos. Não há como afirmar que foi essa união do grupo fechado a responsável pela arrancada de quatro vitórias, inclusive sobre a lendária seleção de Telê Santana, até o tricampeonato mundial. Mas funcionou.

Deu resultado prático também com Portugal na última Eurocopa. Depois de Cristiano Ronaldo arremessar o microfone de um repórter português num lago em acesso de fúria, a seleção que vinha penando no torneio arrancou para a conquista. A velha necessidade de criar um inimigo para se unir e lutar contra.

No Brasil, outros dois casos em um mesmo time. O Vasco de Edmundo, que depois de uma declaração infeliz sobre o árbitro Dacildo Mourão e ser alvejado por críticas, se recusou a dar entrevistas. Concentrado apenas no futebol, teve desempenho espetacular, levou o Vasco ao título e quebrou o recorde de gols em uma mesma edição com 29 e em uma mesma partida – seis, contra o União São João, em São Januário.

Três anos depois, sem Edmundo, outra polêmica: a queda do alambrado em São Januário na primeira partida da decisão da Copa João Havelange contra o São Caetano. Eurico Miranda queria que o jogo fosse reiniciado, apesar dos 160 feridos. Não conseguiu e foi muito criticado.

Jogo remarcado para o início de 2001 no Maracanã. Até lá, Eurico proibiu entrevistas e até acesso da imprensa a São Januário. Para afrontar, obviamente, mas também com o objetivo de blindar o time e não desviar o foco. O resultado prático foi vitória por 3 a 1 e uma das melhores exibições coletivas da equipe dos Juninhos (Pernambucano e Paulista), Euler e Romário.

Exceções. A história mostra muito mais casos de times campeões que não tinham problemas com a imprensa e não precisaram de um litígio como motivação para melhorar o desempenho.

Mas se o silêncio de Neymar e uma mais que provável vontade de responder aos críticos "destrutivos" servirem para ele repetir na decisão contra a Alemanha no Maracanã a bela atuação dos 6 a 0 na semifinal olímpica…que seja.

Até para nós, jornalistas. Porque a falta de aspas seria compensada com as pautas sobre a vitória, que atingem e mobilizam muita gente e criam um clima de otimismo e esperança. O ouro inédito vale mais que as palavras.

Neymar, você não precisa nos mostrar seu valor como jogador. Mas se isto também lhe estimula a vencer e dar espetáculo em campo, boa sorte!

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.