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O Brasil de Neymar ganha o ouro e um time. Agora é com Tite!

André Rocha

20/08/2016 21h04

Somos eternos insatisfeitos. A medalha de ouro em casa era a meta, a ponto de poupar o nosso craque maior em um torneio oficial da seleção principal. Instantes depois da catarse no Maracanã após a cobrança de Neymar, a pergunta surge: e agora?

A final em 120 minutos deixa lições. A Alemanha, mesmo sem remanescentes dos 7 a 1, mostrou as nossas deficiências de sempre: dificuldade de criar espaços jogando coletivamente e sofrer quando a disputa vai para o emocional. Os alemães jogavam agrupados, pressionavam o adversário com a bola assim que entrava na sua intermediária e induziam o quarteto ofensivo brasileiro a tentar o drible e não a tabela.

Bola roubada, saída rápida com Meyer às costas de Walace e Renato Augusto e os pontas Brant e Gnabry buscando as diagonais. Ainda ameaçavam nas jogadas aéreas. Três bolas no travessão de Weverton.

O Brasil tinha Neymar. Buscando para articular, procurando mais o lado esquerdo. Desequilibrando na cobrança de falta que também tocou no travessão. Mas entrou e explodiu o Maracanã. Salvando uma atuação ruim ofensivamente no primeiro tempo.

Porque além da tensão de uma final que ganhou um peso de Copa do Mundo pelo contexto, os meninos Gabriel e Gabriel Jesus ainda precisam aprender muito no senso coletivo. Deslocar no tempo certo para dar opção, saber a hora de tocar de primeira, mesmo pressionado. Luan também errou, inclusive na finalização fraca em cima do zagueiro Süele na outra oportunidade nos primeiros 45 minutos.

Mas voltavam pelas pontas formando uma linha de quatro à frente da defesa. A seleção brasileira foi um time sem a bola e no espírito. Pressão imediata na perda da bola, disciplina e atenção na recomposição.

Segundo tempo com o plano claro de esperar a Alemanha e aproveitar os espaços. Mas com muitos erros de passe, mesmo com Renato Augusto recuando na linha dos zagueiros para qualificar a saída. Não por acaso, o camisa cinco foi o melhor brasileiro por ter a leitura de jogo e visão tática mais apuradas.

Walace errou, depois Marquinhos – o primeiro na Olimpíada. Não por acaso, a equipe de Rogério Micale sofreu seu primeiro gol. Meyer, novamente nas costas de Walace.

A melhor notícia da decisão é que o Brasil não se desmanchou mentalmente com o empate. Pelo contrário, cresceu com Felipe Anderson à direita na vaga de Gabriel, que errou em contragolpes seguidos. Depois Micale trocou o esgotado Jesus por Rafinha para liberar Neymar, que deu três passes geniais para chances cristalinas. Felipe Anderson e Rafinha sentiram e erraram à frente do goleiro Horn.

Domínio completo na prorrogação, até Neymar tentar um pique e mancar. Inteligente, os alemães avançaram as linhas e trocaram passes. Mas também não tinham pernas para tentar algo mais. De qualquer forma, foram 120 minutos de bom futebol no Maracanã.

Também belas cobranças de pênaltis até Weverton pegar o chute do artilheiro Petersen. Não podia haver melhor roteiro para Neymar. De nome riscado na camisa do menino para o gol do título. Fez a pré-temporada depois das férias na preparação, sentiu a falta de ritmo nos primeiros jogos, sofreu aberto à esquerda tendo que dar piques e receber a bola toda hora para a jogada individual. Ouviu críticas de todos os lados, até quando guardou o silêncio.

Com liberdade, cresceu como passador. E fez o que dele se esperava: decidiu. O craque e o personagem do título inédito.

Mas agora com um time acompanhando. Méritos de Micale. Técnico de conceitos e convicções que compensaram a inexperiência além da base. Mostra que o caminho é o do conteúdo, do trabalho. Da gestão de grupo também. Mas não só o discurso de motivação e "virem-se!"

Com pouco mais de um mês com o grupo completo entregou resultado e desempenho. Mesmo descontando a fragilidade dos adversários em casa. O que seria capaz em um ciclo de quatro anos? Talvez de aprimorar o jogar "de memória", que é algo impossível na seleção. Um desafio.

Agora com Tite. Não com todos os campeões olímpicos, mas aproveitando e polindo os meninos. Com conceitos e muito mais vivência, ao menos em clubes. Para trazer Thiago Silva e Marcelo de volta, aproveitar os melhores e formar outra equipe para as Eliminatórias. Que pode ser forte em um clima mais leve, com cultura de vitória após tantos reveses e vexames.

Para o Brasil, o ouro é a cor da esperança.

 

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.