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Atletiba cancelado pode ser, enfim, o início do fim da inversão de valores

André Rocha

20/02/2017 06h15

As federações só existem porque um belo dia os clubes de futebol decidiram que precisavam de uma entidade mediadora para ajudar a tomar decisões, organizar competições e solucionar conflitos. As emissoras de TV só se mobilizaram para transmitir jogos porque há o interesse dos torcedores que não podem ou optam por não ir ao estádio acompanhar seu time e geram audiência.

Com o tempo, e por culpa da desorganização dos clubes, estes agentes que só existem por causa dos times e de seus fãs inverteram a hierarquia e tomaram o poder para si. Como Brian Epstein e o Coronel Tom Parker, diante da ingenuidade dos jovens garotos de Liverpool e do menino Elvis Presley, se tornaram chefes de quem tinha talento, carisma e milhões de apaixonados. Os que faziam a roda girar na música do seu tempo.

Como estamos no país do "manda quem pode, obedece quem tem juízo", a situação se agrava e os dirigentes têm certeza que podem tudo. Inclusive impedir a transmissão de uma partida envolvendo os maiores times de uma região, o grande clássico de um estadual, com a desculpa esfarrapada de falta de credenciamento de jornalistas.

Só que não. E Atlético-PR e Coritiba deixaram isso claro na Arena da Baixada. Se os clubes não quiserem não há jogo, nem televisionamento. Porque federações e emissoras não têm torcedores, não despertam paixões. Logo, não decidem. Ou não deveriam.

Essa inversão de valores só acontece porque até hoje os clubes se contentam com migalhas. Seja uma aliança para garantir um mando de campo aqui, uma decisão favorável ali, uma arbitragem mais conivente acolá. Seja o adiantamento de cotas de TV para tapar o buraco de orçamentos mal planejados e executados.

Que a revolta em Curitiba com o Atletiba cancelado seja, enfim, o início de uma revolução que não veio com a Copa União nos anos 1980, nem com a Primeira Liga agora. Ver dois rivais históricos unidos e alinhados na proposta de buscar o melhor para si e, consequentemente, para os demais renova as esperanças em dias melhores e mais democráticos.

Será desta vez?

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.