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André Rocha

"Poko" pressionado, Valdívia entra na máquina de moer do futebol brasileiro

André Rocha

07/04/2017 11h10

A história de Valdívia, ou Wanderson Ferreira de Oliveira, é daquelas que dá prazer de contar. Apareceu na Copa SP de 2012 pelo Rondonópolis de Mato Grosso, mostrando que a crítica de todo ano ao inchaço do torneio de base não se justifica por esses casos que parecem acaso.

Por causa dos oito gols e do bom futebol foi parar no Internacional. Logo se destacou pela bola jogada e pelo carisma. Usa o apelido do meia chileno pelo visual, digamos, inusitado a seu favor. Autoestima lá em cima do "Poko Pika".

Até por ser um jogador raro. Atua pelas pontas, mas com mais drible e criatividade que só a correria típica dos velocistas.Também finaliza bem, com bola parada ou rolando. Em 2015 foi o meia atacante que mais marcou gols no país: 19 bolas na rede.

Convocação para a seleção olímpica e vaga quase certa no grupo de Rogério Micale para os Jogos do Rio de Janeiro. Não fosse uma ruptura no ligamento cruzado do joelho esquerdo que negou a chance da medalha de ouro no peito, ainda que na reserva.

Voltou sete meses depois, mas num ambiente caótico. Vindo de longa inatividade e inserido em equipes desorganizadas, não conseguiu impedir o rebaixamento do Internacional. Acabou entrando no balaio da caça às bruxas que devia mirar muito mais a incompetência dos dirigentes do clube. Na prática, um recomeço para quem perdeu valor de mercado, mas não a alegria e o potencial.

Por isso despertou o interesse do Corinthians e de repente se viu alvo de especulações também em Palmeiras e São Paulo. Bastou para virar o centro das atenções e entrar na máquina de moer corpos e mentes do futebol brasileiro.

Assédio, pressão e a imagem de "ingrato" para a torcida colorada. Como assim sair na hora de roer o osso na Série B? E logo para o Corinthians, o grande rival fora do Rio Grande do Sul na última década?

Só não aconteceu porque Giovanni Augusto, envolvido na troca, recusou a transferência. Algo que devia ser visto como natural no futebol profissional – ainda mais no brasileiro, que tem o mercado aberto praticamente o ano todo – provocou a ira da massa vermelha de Porto Alegre que anda carente de boas notícias e resolveu descarregar no jovem de 22 anos.

Vaias ao entrar no lugar de Nico López aos 26 minutos do segundo tempo do jogo de ida das quartas-de-final do Campeonato Gaúcho contra o Cruzeiro. Jogo duro no Beira-Rio, vitória apertada por 2 a 1 que deixaria a partida de volta ainda mais complicada. Mas Valdívia, como disse o técnico Antonio Carlos Zago, tirou um "coelho da cartola" nos acréscimos e cobrou direto uma falta lateral um tanto longe da meta adversária.

Terceiro gol de alívio para o Inter e de lágrimas para camisa 29. Como quem tira toneladas das costas. Que de ídolo passa a "bichado", "mercenário" e "traidor". Uma montanha russa. De amor incondicional ao ódio tão presente em nossas redes não tão sociais. "Quando se está num momento ruim ninguém te abraça", resumiu o próprio meia depois do jogo.

"Poka" pressão para quem merece mais carinho por ser um jogador diferente. Dentro e fora de campo. Daqueles personagens folclóricos capazes de alegrar um futebol cada vez mais sisudo. Se Valdívia for mais um talento moído todos perdem. Injusto para um vencedor da vida.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.