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Calça vinho, marcação individual, lateral na área... Lá vem o Cuca de novo!

André Rocha

06/05/2017 11h03

(Foto: Cesar Greco / Fotoarena)

Este blogueiro não aprecia superstições. Nunca repetiu roupa porque o time de coração venceu ou algo na vida pessoal ou profissional deu muito certo. Para quem tem fé é uma tremenda incoerência, porque nada mais é do que uma forma de se sentir no controle dos acontecimentos. Do próprio destino.

Também abomino cobrança de lateral diretamente na área. Só entendo se for um dos poucos recursos de um time sem qualidade técnica para atacar de outra forma, trabalhando mais a bola. Apelar para isso com o elenco mais qualificado do país é de uma pobreza ímpar.

Marcação individual é algo que deveria ter ficado no passado. Lá em 1982, com Gentile colado em Zico e Maradona. Cada um pega o seu e um zagueiro sobra lá atrás. Ou seja, um drible, uma movimentação, um desmarque e tudo se desequilibra e estoura na defesa.

Sem contar que a equipe marca correndo, se desgasta mais e, se o adversário é muito móvel, os jogadores estão fora de suas posições para iniciar o ataque. Normalmente apelam para a ligação direta, o chutão, para que voltem aos pontos de origem.

Unhas roídas até a pele me dão nos nervos. Beijo na santinha é outra superstição, embora eu respeite a religiosidade de quem quer que seja. A meu ver, comandantes tensos e instáveis, em qualquer área de atuação, contaminam o ambiente. Tudo fica muito à flor da pele e o pavio  sempre aceso.

Ou seja, Cuca é praticamente a antítese do que acho que deve ser um técnico de futebol. Ainda acredita na velha escola gaúcha de futebol, inspirada na argentina e uruguaia. Aprecia Felipão e Rubens Minelli. Um jogo que ficou no passado.

Só que dá certo. Porque Alexi Stival é um homem inteligente e observador. Entende as características de seus atletas e vê o futebol atual com atenção. E vai adaptando suas convicções. No Palmeiras campeão brasileiro, Moisés e Tchê Tchê qualificavam a saída de bola. Não mais volantes como Pierre e Leandro Donizete e mais um lateral-zagueiro para liberar o ala do lado oposto e os meias criativos.

O perfil obsessivo e inseguro também faz ensaiar jogadas à exaustão. Desde a saída da bola até o ponto em que ela tem que encontrar o atacante. Coloca pilha nos comandados, que entram nervosos, porém concentrados. Se preciso for, correm o dobro para executar o plano de jogo que cobra intensidade máxima.

É tudo isso que o palmeirense queria de volta. E atleticanos têm saudades. E tricolores, de São Paulo e do Rio de Janeiro, uma gratidão eterna. Impossível não reconhecer os méritos.

Só não me peçam para apreciar ou aprovar. Os palmeirenses no último Brasileiro atacaram este blog e quem escreve nele por uma suposta perseguição ao clube ou torcida pelo Flamengo, o rival na disputa pela liderança na maioria das rodadas.

Sem chance. Sou fã do Palmeiras "rolo compressor" de 1996 e até chorei com Denis em 1986 quando o Palmeiras, na época em um jejum de dez anos, perdeu a final do Paulista para a Internacional de Limeira. Adorava o futebol do ponta Jorginho, achava Mirandinha e Vagner Bacharel carismáticos. Impossível não gostar do time de Luxemburgo bicampeão brasileiro e paulista de 1993/94.

A questão deste que escreve é com o Cuca. Nada pessoal, nem o conheço. Só que é impossível não criticar alguém que pratica quase tudo que você desaprova. É humano preferir que ele não vença. Mas tenham certeza: não persigo, não tento plantar crise aqui neste pequeno espaço. E se houver mérito não recolho o elogio.

O jogo é limpo, como este post é absolutamente sincero. Mesmo sabendo que os idiotas que existem em todas as torcidas não entenderão nada e destilarão seu ódio aqui e nas redes sociais.

Lá vem o Cuca de novo! Com sua calça vinho e o tradicional sinal mandando jogar a bola na área. Cinco meses depois do título brasileiro que tanto queria. Que os palmeirenses tanto sonhavam após 22 anos. Difícil compreender os motivos da recusa em dezembro e do retorno agora. Mas eu nunca tentei entender Alexi Stival.

Não serei hipócrita de desejar boa sorte. Mas fica aqui a promessa renovada do respeito habitual, sabendo identificar pontos positivos e reconhecer que o jogo "maluco", o "Porco Doido" funciona e agrada o torcedor que adora fazer de seu estádio um caldeirão temido pelos adversários. E nisto o Cuca é muito bom.

E não dá para negar o óbvio: com ele, o Palmeiras fica ainda mais favorito a tudo que disputar na temporada.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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