PUBLICIDADE
Topo

Sectarismo: a razão do fetiche de descobrir o time de coração do jornalista

André Rocha

20/05/2017 13h19

O torcedor que participa de fóruns, sites e grupos de WhatsApp dedicados ao seu time de coração já deve ter se deparado com a seguinte situação: uma crítica que é consenso nas discussões internas nunca é bem aceita quando sai da boca de um rival.

É como alguém de fora da família comentar o comportamento ou algum desvio de um pai ou irmão. É verdade, mas deve sempre ter tratada como "roupa suja se lava em casa".

Esse fetiche de descobrir o time de coração do jornalista sempre me intrigou. Afinal, o que isso influenciaria no seu trabalho? Até porque, se a paixão não diluir ao longo do tempo, o mais comum é adotar um tom mais crítico com este mesmo time. Não para buscar isenção, mas por se importar mais com ele.

Particularmente, sempre preferi o futebol ao time de coração. Como já contei neste blog, cheguei ao ponto de assistir a um clássico no lado do rival no Maracanã e efetivamente torci para o melhor time à época, que me encantava.

A seleção brasileira também fica acima, até hoje. Legado do escrete de 1982 e todo seu simbolismo. A escolha do time, confesso, foi mais para contrariar a família portuguesa e também por ser o time mais vencedor naquele momento. Ou seja, optei pelo Flamengo de Zico, aos oito anos de idade.

Mas acreditem: com o tempo, o jornalista tende a torcer mais por suas convicções se concretizarem em resultados do que pela paixão de infância. Várias vezes, mesmo no estádio, preferi a vitória do adversário do rubro-negro por ser mais alinhado ao que acredito ser o melhor para o futebol.

O analista se preocupa com outras questões, como o legado de uma maneira de jogar, a visão de futebol de um treinador vitorioso e que pode entrar na linha de sucessão na seleção brasileira – no meu caso, essa paixão se transformou menos, apesar da CBF.

Mas para o torcedor a relação é direta: só quem torce para o clube pode opinar. Mesmo os mais críticos contam com uma paciência diferente. Se ele está apontando o erro é porque quer o melhor do time. Mas se torce para o rival só há uma explicação: quer plantar crise, prejudicar. Ainda que a observação seja ponderada, respeitosa…e exatamente a mesma que ecoa nos grupos dedicados ao clube.

Há as exceções, normalmente dos colegas que preferem, até pelo traço da personalidade, buscar um consenso, fugir da contundência e sempre procurar os aspectos positivos em todos os times. São os "caras legais". Ainda mais se eles entram naquele grupo de torcedores mais críticos com o próprio time de coração. Aí é mais fácil ser perseguido pelos "irmãos" de cores e credos. Mas, como disse, de maneira diferente, mais branda. É "um de nós".

Em qualquer cenário, porém, o que prevalece é o sectarismo. É transformar o time em seita, religião. Algo comum nos perfis criados em redes sociais. O indivíduo não tem rosto, nem nome. Tudo é relacionado ao clube, desde a foto até a descrição. Ali impera a intolerância e a intransigência.

Qualquer coisa que não é elogio vira perseguição de um rival. E, portanto, merece ser massacrado. Virtualmente e se cruzar na rua…Então comentaristas viram inimigos. O torcedor chega ao ponto de seguir apenas para patrulhar, quando ignorar seria o mais saudável para as duas partes. É até o mais lógico: se o que o jornalista diz não tem credibilidade, para que acompanhá-lo?

A resposta está na necessidade de ter um alvo para gritar "chupa!" quando seu time vence. Aquele inimigo imaginário que alguns treinadores criam quando ele não existe para motivar seus atletas. Reparem: quase toda conquista no Brasil é celebrada "para calar a boca". De alguém que simplesmente é pago para expressar sua opinião e ajudar a formar a do público.

O jornalista que paga contas, às vezes tem que lidar com uma escala apertada que o enfia no estúdio e numa redação durante um dia inteiro. Que precisa conciliar isso com a família, amigos, estudo…E o torcedor tem certeza absoluta que ele passa o dia arquitetando um jeito de prejudicar o rival.

Não faz sentido. Mas na prática a derrota do rival é tão ou mais deliciosa que a conquista do próprio time. É preciso ter uma referência para transmitir, por oposição, valor ao que se ama. Sempre me intrigou em estádio, nos tempos de clássicos com duas torcidas, o torcedor que em vez de celebrar o gol do seu time e abraçar quem está do lado prefere se virar para o lado rival e xingar, apontar o dedo médio, etc.

É assim, não vai mudar. Ao menos por enquanto. Difícil entender. Mas me ajudou a compreender essa fissura pelos times dos jornalistas. É o sectarismo que precisa do "outro lado". É estúpido, mas é humano. Mais uma prova de que nossa sociedade é doente. Resta sobreviver e manter respirando a paixão que iniciou todo o processo: o futebol.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.