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Eu sei por que você me odeia

André Rocha

28/06/2017 06h32

O primeiro contato deste blogueiro com críticas a ídolos não veio do futebol. Até porque nos anos 1980 os veículos eram, digamos, "festeiros" demais para sequer fazer ressalvas a quem quer que fosse. Ainda mais a idolatrada, por vezes mimada, geração de 1982.

Foi na música mesmo, com a explosão do Rock Brasil. Era duro ler ou ouvir alguém detonando a banda ou o artista favorito. Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião Urbana, conta em seu livro "Memórias de um Legionário" que o jornalista José Augusto Lemos disse a ele que, por causa de uma crítica negativa ao disco "Dois", lançado em 1986, ele recebeu 30 cartas iguais de um fã indignado. Uma por dia.

Outros tempos. Hoje, com quase todo mundo relativamente acessível nas redes sociais, fica mais fácil extravasar. E confesso que, naquela época, lá pelos 13, 14 anos, se pudesse mandar mensagens para os críticos da revista Bizz, especialmente o André Forastieri, eu seria insuportável e levaria um block implacável.

Ou seja, os haters só são um fenômeno atual pelos meios, não pelos indivíduos. Em qualquer segmento. Na música, na TV, no futebol. Em relação aos jornalistas, não é difícil entender essa aversão.

Porque nos enfiamos no meio dessa relação ídolo-fã, time do coração-torcedor. Que é lúdica por natureza. Uma válvula de escape para as agruras do dia após dia. Na qual tudo pode ser perfeito, nem que seja por uma noite. Um jogo. Um espetáculo. Um capítulo.

E o pior: entramos nessa "intimidade" querendo trazer racionalidade. O "não é bem assim" naquela vitória que fez o fanático ir às nuvens e querer ficar por lá. E nós puxando a perna do sujeito, trazendo à realidade de que no próximo jogo pode ser tudo diferente.

Pior ainda quando relativizamos o triunfo com erros de arbitragem. Ou informamos aqueles problemas na gestão do clube. "Não, está tudo perfeito!" Tem que estar tudo perfeito. Ora, quem pode contestar o dirigente que, mesmo sem dinheiro nos cofres e duplicando a dívida, trouxe aquele craque que me faz tão feliz?

É nossa função. Claro, com as exceções que confirmam a regra. Os mal intencionados, com desvio de caráter mesmo. Ou os que não conseguem disfarçar a torcida – a favor do seu e contra os rivais. Ou aqueles que declaram as cores que amam e, no vício do ofício de trazer o discurso para o equilíbrio, passam a ser mais críticos do que com o resto. Estes também viram alvos.

A "vingança" mais comum é tentar nos excluir: "Nunca jogou bola e quer opinar!" Isso vale para o clube que se ama e o jogador que se idolatra e normalmente existe o sonho de ser igual. Até imitando na pelada. Como alguém ousa dizer que ele não é o maior de todos os tempos (da última semana)?

Sabemos, ou devemos saber, da nossa insignificância dentro do espetáculo. Jogadores e torcida são os protagonistas. Hoje, treinadores e dirigentes entraram nesse bolo – para este que escreve, um equívoco. Nós estamos de fora, sim. Mas temos o direito de informar, opinar e ajudar a construir a visão do espectador. E às vezes interferimos no jogo.

Seja para o craque criticado que se motivou e arrebentou no jogo para "calar a bola de quem falou besteira", seja naquela observação que incomoda e gera protestos públicos, mas também a reflexão e até a mudança de atitude no silêncio do orgulho. Algo que jornalista não pode ter para também mudar de opinião. Ainda que seja depois chamado de "incoerente" ou "picolé de chuchu" por não seguir com a convicção que já tinha se transformado em teimosia.

Na essência somos desimportantes. Mas lembre-se: quando terminou o doído 7 a 1, muitos deixaram a TV ligada ou correram para a internet para que ajudassem a explicar o que havia acontecido. Quando a tragédia da Chapecoense abalou os corações foi o jornalismo que trouxe tanto a informação que todos preferiam que não existisse quanto o conforto e o abraço da Dona Ilaídes, mãe do goleiro Danilo. Em um repórter.

O mundo ainda segue a fábula do rei que ao receber uma má notícia manda matar o mensageiro. Compreensível. É preciso descontar em alguém. E o bom jornalismo incomoda quem quer manter o status quo que o privilegia. Acredite: sem imprensa, seria bem pior do que é. Por pior que ela seja ou que você ache. A história mostra.

Eu sei por que você me odeia. Até entendo. Mas tenha certeza de que não é minha intenção. Só o meu trabalho.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.