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Se é momento para testes, por que não um Brasil à la Real Madrid?

André Rocha

04/10/2017 02h28

Foto: Ricardo Botelho (FolhaPress)

Para o jogo contra a Bolívia em La Paz na quinta-feira, Tite confirma a mudança forçada – Alex Sandro no lugar dos lesionados Marcelo e Filipe Luís na lateral esquerda – e uma por opção: Thiago Silva na vaga de Marquinhos, formando a zaga com Miranda.

A outra alteração em relação à última rodada das Eliminatórias é o retorno de Philippe Coutinho ao lado direito da linha de meias do 4-1-4-1 à frente de Casemiro. Com a saída de Willian, a mudança de perfil, como afirma o próprio treinador: "Tenho um mais vertical e agudo, que ataca os espaços (Willian), e outro mais construtor (Coutinho)".

Coutinho constroi porque é meia. Dos bons. Mas costuma render melhor partindo da esquerda ou do centro. Na própria seleção, seus grandes momentos, incluindo o golaço sobre a Argentina, foi saindo do lado direito para circular às costas dos volantes adversários. Quando abre ainda fica desconfortável, não tem o timing para as combinações com Daniel Alves.

Tite deixa claro que sua convicção é na qualificação deste 4-1-4-1 até a Copa, com a variação do desenho tático para o 4-2-3-1 com Coutinho por dentro e Willian pela direita. Legítimo, até pelo pouco tempo de trabalho até aqui e menos ainda até o Mundial da Rússia.

Mas por que não um teste para ter um coelho na cartola, algo para surpreender os rivais que certamente depois de confirmarem suas vagas na Copa vão dissecar um dos candidatos ao título? E isto é possível sem mexer na formação titular.

O Real Madrid conquistou Espanhol e Liga dos Campeões na temporada europeia passada e cresceu na reta final quando Zinedine Zidane, sem o lesionado Gareth Bale, colocou Isco em seu lugar. Com isso mudou também o sistema: de um 4-3-3 rígido, com Casemiro na proteção e dois meio-campistas mais organizadores – Modric e Kroos – e o trio "BBC" na frente. para um 4-3-1-2 mais flexível, com ou sem a bola.

Porque Isco ganhou liberdade para circular e também permitiu que Cristiano Ronaldo não fosse nem centroavante, nem ponteiro, mas atacante numa dupla com Benzema. Trocando de lado, buscando as diagonais, tabelando. A  troca deu liberdade aos laterais Carvajal e Marcelo para apoiarem ao mesmo tempo, abrindo o sistema defensivo adversário.

Sem a bola, duas linhas de quatro. A do meio-campo bastante móvel,em função do posicionamento de Isco no retorno. Se ele volta pela direita, Casemiro e Modric fecham o meio e Kroos abre à esquerda; se retorna pela esquerda é Modric quem abre pela direita e Kroos se junta ao volante brasileiro no centro. Quando Isco recompõe centralizado, Casemiro se adianta na compactação e Modric e Kroos fecham os flancos.

O 4-3-1-2 com Isco se aproximando da dupla Cristiano Ronaldo-Benzema e voltando na recomposição formando uma linha de quatro móvel com Casemiro, Modric e Kroos, de acordo com o posicionamento do camisa 22 na recomposição (Tactical Pad).

Tudo executado com naturalidade e inteligência, como atua o time merengue, especialmente nos jogos grandes, decisivos. É uma equipe que se adapta às necessidades da disputa e sabe jogar com posse, instalado no campo de ataque, ou em transições ofensivas rápidas, aproveitando os espaços às costas da defesa do oponente.

Na seleção, Coutinho pode ser Isco, jogando solto, sem a obrigação de ficar ou partir do setor direito. Com isso se aproximaria mais da dupla Gabriel Jesus-Neymar, todos com autonomia para circular e procurar espaços para surpreender as retaguardas com tabelas, triangulações, infiltrações em diagonal dos atacantes.

Tite não gosta de tirar Neymar do setor esquerdo. De fato, é onde a estrela brasileira mais rende. Mas a liberdade para o talento nunca é improdutiva e as trocas com Gabriel Jesus, as diagonais mais curtas, mesmo saindo da esquerda, podem tornar o camisa dez ainda mais letal. Mais próximo da meta adversária.

Sem a bola, a lógica seria a mesma do atual bicampeão europeu: Coutinho se juntaria a Casemiro, Paulinho e Renato Augusto e a distribuição dos quatro na linha à frente da defesa se daria de acordo com o camisa onze, No caso da seleção poderia haver outra referência: o posicionamento de Paulinho e Renato Augusto, que costumam trocar muito. De lado e de função. Paulinho recua para usar seu poder de marcação. Já com Renato mais atrás o objetivo é ganhar um organizador e qualificar a saída de bola.

O meio-campo em losango na seleção teria a mesma dinâmica do Real Madrid, com Philippe Coutinho como meia de ligação e referência para a composição da segunda linha de quatro no momento defensivo. Na frente, Gabriel Jesus e Neymar com liberdade e nas laterais Daniel Alves e Marcelo aproveitando os corredores abertos (Tactical Pad).

Tite tem Casemiro e Marcelo, quando este voltar, para obter ainda mais detalhes sobre a execução. Sem contar que a referência continua sendo o seu amigo Carlo Ancelotti, já que a base do modelo de jogo, ainda que tenha amadurecido e se aprimorado, vem do italiano, que tinha Zidane como auxiliar em sua passagem pelo clube, de 2013 a 2015. Ou seja, não seria algo a surgir "do nada".

Até porque o sistema não seria algo inédito para o comandante canarinho. Com outra dinâmica, o 4-4-2 com o meio-campo em losango já foi utilizado. O mais marcante no Internacional campeão da Copa Sul-Americana em 2008 e vice da Copa do Brasil no ano seguinte. Com Sandro ou Edinho plantado à frente da defesa, Magrão e Guiñazu pelos lados e D'Alessandro como "enganche", articulando para a dupla Taison-Nilmar. Tempos de menos compactação e mais encaixes e perseguições individuais, mas ainda um 4-3-1-2.

Uma possibilidade, nada complexa. Algo para sair um pouco do plano original e da sua variação mais conhecida. Sem mudar a escalação ou afetar o entrosamento. Porém mexendo nas peças para ter uma alternativa. Por que não um Brasil à la Real Madrid?

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.