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Grêmio vence na fase emocional do jogo. Lanús confia demais no fator campo

André Rocha

23/11/2017 07h20

Os analistas costumam cometer um erro, assumido por este que escreve, de construir a prévia de um jogo em seus aspectos tático, técnico e estratégico levando em consideração apenas as formações iniciais e as práticas habituais de atletas e treinadores. Ou seja, a fase mais racional do jogo.

Que pode durar cinco minutos caso saia um gol, uma expulsão…Ou a partida já comece com um certo caos, como um "abafa" do mandante aproveitando a eletricidade da torcida em um estádio lotado. O futebol é essa "cachaça" mundial justamente pela imprevisibilidade.

O Grêmio entrou em sua Arena para a primeira etapa da decisão da Libertadores disposto a sufocar o Lanús desde a saída de bola "Lavolpiana" do time do treinador Jorge Almirón. Com Luan incomodando Marcone e Barrios apertando os zagueiros Rolando Garcia e Braghieri. Se não conseguia roubar a bola, a dupla mais avançada do 4-2-3-1 habitual ao menos quebrava a troca de passes e forçava a ligação direta. Ou o recuo para o goleiro Andrada. Quase resultou em gol duas vezes, com Ramiro e Arthur, esta a melhor oportunidade gremista no primeiro tempo.

O time argentino era paciente, mesmo na tensão natural de uma primeira decisão do principal torneio do continente. Na maior parte do tempo trocou passes curtos e só esticava na esquerda para o ponteiro Acosta, o melhor do setor ofensivo na execução do 4-3-3/4-1-4-1.

O problema era que o organizador, Martínez, jogava uma rotação abaixo da intensidade do jogo e perdia bolas seguidas para Jailson, volante mais físico escolhido por Renato Gaúcho para se impor entre as intermediárias. Sand também não ajudava, sendo dominado em praticamente todas as disputas com Geromel e Kannemann.

Mas quando saía da pressão criava problemas para a última linha defensiva do time da casa. E na bola parada teve a grande oportunidade dos primeiros 45 minutos: escanteio da direita, cabeçada perfeita de Braghieri que Marcelo Grohe salvou com uma defesa quase tão espetacular quanto a da vitória sobre o Barcelona em chute de Ariel na pequena área. Foram apenas duas finalizações, mas no alvo. O Grêmio concluiu três, nenhuma na direção da meta de Andrada.

O tricolor gaúcho conseguiu voltar ainda mais aceso e intenso para o segundo tempo. O Lanús, talvez pelos erros na saída de bola, resolveu não arriscar, alongar os passes com mais frequência e esperar o desespero do mandante.

Um erro, porque o Grêmio e sua torcida foram crescendo no jogo. A equipe chegou a 16 desarmes certos, dez a mais que os visitantes. Atacava, perdia, retomava e voltava a atacar. Para não perder fôlego e pressão na frente, Renato trocou Barrios, Fernandinho e Jailson – este já com amarelo e "pedindo" para ser expulso – por Jael, Everton e Cícero. Com mais força na disputa pelo alto, passou a insistir num jogo mais direto.

A disputa entrou na sua fase emocional. Quando vem o cansaço, um certo desentrosamento pelas substituições – ainda que Almirón tenha feito apenas uma, aos 34 do segundo tempo trocando Velázquez por Aguirre – e uma desorganização movida pela necessidade. O time satisfeito com o resultado instintivamente defende mais a própria área, quem precisa reverter o placar ou construir uma vantagem mínima em casa num mata-mata se lança à frente já sem muita coordenação.

De tanto insistir o Grêmio alcançou seu gol de uma maneira improvável para qualquer analista: o time que gosta da bola no chão e da troca de passes fez a ligação direta com Edilson até Jael escorar e Cícero tirar de Andrada. Gol típico do futebol britânico dos anos 1980. Na fibra, na entrega, a forceps o time do iluminado Renato conseguiu. Foram sete finalizações na segunda etapa contra zero dos visitantes.

Deve sofrer na volta em Lanús. O time argentino venceu todas em casa desde as oitavas de final contra o Strongest. Empatou fora com os bolivianos e foi derrotado por San Lorenzo e River Plate. Confia no fator campo. Até demais. Correu riscos nas fases anteriores, podia ter saído de Porto Alegre com uma desvantagem maior caso o pênalti claro sobre Jael no final fosse marcado pela confusa arbitragem comandada por Julio Bascuñan.

Mas agora é decisão. Vale taça. O Grêmio tem a tradição de dois títulos e quatro finais. Para o Lanús é tudo novo. Renato não terá Kannemann, suspenso. Almirón também perdeu o zagueiro Braghieri com três amarelos. Equilíbrio de forças. Desta vez a razão estará com o Grêmio para tentar controlar o jogo. Haverá espaço para acelerar. Os argentinos já mostraram que em seus domínios são poderosos para subverter tudo. Também são fortes na fase emocional. Como será?

A final está aberta. E o analista, felizmente, não leva nenhuma certeza para o duelo da semana que vem em La Fortaleza.

(Estatísticas: Footstats)

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.