PUBLICIDADE
Topo

Pelé foi o atleta na era de jogadores. Messi é o jogador na era de atletas

André Rocha

07/03/2018 06h55

Foto: FIFA

O título é quase um slogan para uma ideia porque, obviamente, havia muito, mas muito mesmo, de jogador em Pelé e Messi tem que ter muito de atleta para brilhar no futebol atual.

Mas vale a imagem para retratar duas eras. Ainda que Cristiano Ronaldo seja um rival que Pelé nunca teve, nem Garrincha no Botafogo. Em duelos no país e no continente. O artilheiro do Real Madrid pode até terminar como o jogador deste período se terminar a carreira com mais títulos de Liga dos Campeões e prêmios individuais que o argentino.

Com os 600 gols de Messi, as comparações com Pelé vieram à tona novamente. Tarefa sempre complicada medir valores de épocas diferentes. Porque se é difícil imaginar o atleta do século nos campos atuais em um futebol que reduziu tempo e espaço drasticamente, não é menos complicado vislumbrar o gênio do Barcelona se virando contra adversários dopados, violentos e sem as câmeras de TV para registrar qualquer excesso de truculência e intimidação em campo e proteger o talento. Sem contar o peso do uniforme, da bola, a qualidade dos gramados, etc.

Mas há um fator que os aproxima e ao mesmo tempo ilustra o que os tornam tão diferentes: Messi hoje é o jogador de linha que menos corre no futebol mundial no seu mais alto nível. Cerca de oito quilômetros por jogo, bem abaixo da média de 12. Mais ou menos o que estudos calculam, sem os recursos de hoje, que Pelé percorria quando voava nos gramados, acima da média de seis quilômetros nos anos 1960.

Contexto. Algo necessário para entender fenômenos. Pelé é do tempo em que jogar na Europa não era condição para se medir entre os melhores. Sem internet e globalização, o que o mundo sabia do Santos era o mesmo que o Brasil sabia de Real Madrid, Barcelona, Milan…O melhor time das galáxias para um menino vivendo no Rio de Janeiro era o alvinegro praiano, que lotava o Maracanã quase sempre.

Usar gols em amistosos na totalização dos mais de mil do "Rei" é justo, coerente. Para faturar e poder manter o melhor do planeta, o Santos viajava muito, com cotas para o clube e para seu astro maior. Algumas vezes desprezando a Libertadores. Enfrentando as grandes equipes europeias, não só nos torneios de pré-temporada por lá – ilusão que nos foi vendida aqui quando Vasco, Flamengo, São Paulo e outros conquistavam os torneios Ramon de Carranza e Teresa Herrera com os europeus voltando de férias e os brasileiros no meio do ano, muito mais bem preparados.

Eram partidas em que os do Velho Continente desafiavam a equipe a ser batida, o Santos. Sim, é quase impossível um jovem visualizar isto. Mas o mundo não foi criado em 1995 com a Lei Bosman.

Messi merece todas as menções como o grande jogador de sua geração. É quase um artesão da bola. Cada gesto é feito com capricho e precisão. Como Roger Federer no tênis, o cuidado e o carinho a cada golpe. Cristiano Ronaldo, então, é Rafael Nadal. Atlético, feroz e minimalista. A genialidade está em encurtar o caminho.

Aqui vale outro paralelo interessante. Pelé era mais atleta e profissional no tempo dos românticos. Não por acaso tantos, ainda que informalmente, na conversa do bar, o coloquem abaixo de Mané Garrincha, um símbolo mais alinhado ao "zeitgeist" (espírito do tempo) dos 1960. Alimentado pelo protagonismo na Copa de 1962, quando Pelé ficou fora de combate. Assim como hoje muitos preferem Cristiano Ronaldo, mais pragmático, focado em resultados. Se acha o melhor porque tem vencido mais. Inclusive com a seleção.

Eis o paradoxo de Messi. É lúdico vê-lo em campo muitas vezes trotando ou mesmo caminhando, à espera do momento para receber a bola entre as linhas do adversário e aí acelerar em direção à meta do rival. O problema nas últimas temporadas em jogos grandes é quando a concentração do oponente é tamanha que os espaços ficam reduzidos demais e o argentino não consegue desequilibrar nos momentos e no torneio mais importante – a Liga dos Campeões. Nem vencer. Aconteceu contra Atlético de Madri e Juventus. Não fosse o despertar de Neymar na reta final dos 6 a 1 e também os erros de arbitragem, pararia no PSG em 2017. Isso fica ainda mais complexo na quase sempre descoordenada seleção argentina.

Por isso Pelé é mais relevante para a história do esporte. Ainda que o tempo seja cruel e, com os que o viram e defendem até hoje seu reinado partindo deste mundo e os que ficam cada vez mais icônicos e falando em "melhor da história" sem conhecê-la, isto tenda a se tornar mais dramático.

Simbolicamente, Pelé foi Messi E Cristiano Ronaldo. Talento e trabalho. Magia e explosão. Longo período no mais alto nível. Interferiu mais na evolução do jogo. Um visionário que já pensava em recordes. Como sobrava fisicamente, empilhava gols na segunda etapa das partidas, com os adversários já extenuados.

Crescia nos jogos grandes, mas pulverizava os pequenos. Craque de "liga" – no caso, o Paulista, campeonato mais próximo da fórmula dos pontos corridos e supervalorizado por uma cultura mais local – e de "mata-mata". Ou só "mata", como nas duas Copas do Mundo em que foi protagonista e campeão. Outra vantagem sobre os dois gênios da atualidade.

Por ora é agradecer pela tecnologia que nos permite achar na internet muita coisa do homem que imortalizou e criou a mística da camisa dez, além do lendário filme "Pelé Eterno". Jogos na íntegra ou quase isso que dão uma dimensão do que foi o ícone, quase sinônimo de futebol por tantos anos. Até hoje para os que viram jogar, mesmo que por puro saudosismo.

Mais gratos ainda devemos ser pelos tempos atuais. No caso deste que escreve, por reunir numa mesma época o melhor jogador que viu ao vivo: Messi. Também o melhor finalizador, Cristiano Ronaldo. De quebra, Pep Guardiola, o melhor treinador. Um privilégio que merece ser desfrutado sem perder tempo com radicalizações e cultura de ódio no saudável e subjetivo exercício da comparação. De hoje e de ontem. Celebremos o futebol!

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.