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Sofrer como favorito e sobrar como "zebra". Mais Uruguai impossível

André Rocha

25/06/2018 13h23

O treinador russo Stanislav Cherchesov facilitou um pouco a tarefa ao rodar o grupo e deixar titulares no banco. Compreensível pela intensidade absurda aplicada pelos donos da casa nas duas primeiras rodadas. Até porque o objetivo inicial era garantir classificação e, na prática, não há muita diferença em enfrentar nas oitavas Espanha ou Portugal, os prováveis classificados do Grupo B.

Mas o Uruguai acabou seguindo um roteiro bem conhecido de sua história. Quando entra como favorito, pela história ou por contar com mais qualidade técnica, costuma se complicar. Ainda mais esta seleção de Óscar Tabárez, dependente de espaços para acionar sua dupla Suárez-Cavani.

Contra Egito e Arábia Saudita, triunfos sem brilho. Na estreia, o sofrimento no gol no final de Giménez. Contra os árabes, expectativa de goleada frustrada mesmo com o gol de Suárez logo aos 20 minutos do primeiro tempo. O peso da responsabilidade não costuma fazer bem. Mais confortável a condição de "zebra" para colocar a tradicional fibra e o conhecido poder de superação.

Contra os russos, se a história de bicampeão mundial não permite ser tratado como uma seleção menor, o desempenho das equipes nas duas primeiras rodadas e, principalmente, a condição de visitante entregava ao Uruguai o papel de coadjuvante no espetáculo. Na prática, porém, os sul-americanos novamente subverteram tudo.

Os gols de Suárez e contra de Cheryshev, desviando chute de Laxalt, em 23 minutos condicionaram o jogo na Arena Samara e a expulsão de Smolnikov aos 36 minutos praticamente tirou qualquer chance de reação russa. O segundo tempo chegou a ter momentos de ritmo de treino.

Mas o Uruguai teve boa atuação, a melhor neste Mundial. Retornando a um desenho costumeiro de Tabárez neste ciclo de 12 anos na seleção: o 4-3-1-2, com meio-campo em losango formado por Torreira à frente da defesa, Nández pela direita, Vecino à esquerda e Betancur mais adiantado na ligação com o ataque. Pelas laterais, Cáceres mais contido à direita no suporte a Coates, substituto de Giménez, e Laxalt com liberdade para descer pelo corredor esquerdo.

O jogo ficou mais fluido, com volume e chegando mais vezes aos atacantes. Foram 56% de posse de bola com 87% de efetividade nos passes e 17 finalizações, sete na direção da meta de Akinfeev. Valeu também para Cavani marcar no fim, fechando os 3 a 0, e tirar a ansiedade do artilheiro sem ir às redes.

Tudo certo para as oitavas. Para ambos. É óbvio que os russos vão deixar tudo em campo contra quem vier, mas parece claro que há a sensação de missão cumprida como anfitriã. Já os uruguaios devem entrar bem confortáveis caso os favoritos confirmem suas vagas definindo a classificação pelo saldo de gols.

Diante de Cristiano Ronaldo e os campeões europeus ou da rediviva Espanha dos craques e da posse de bola, a Celeste jogará serena, no cenário que mais aprecia. Para contrariar as previsões.

(Estatísticas: FIFA)

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.