Blog do André Rocha

Atlético-PR vai na contramão do futebol brasileiro: se organiza para atacar

André Rocha

Foto: Miguel Locatelli/CAP

O futebol jogado no Brasil ainda tem como eixo central o talento que decide. Ainda que por aqui ele só dê as caras quando surge uma joia nas divisões de base e ela pula etapas para entregar alguma coisa no profissional antes de partir para a Europa. Ou de jogadores em reta final de carreira. Ainda os que não se adaptaram ao jogo de lá e voltam para ser reis.

Então as equipes se organizam defensivamente com linhas compactas e pressão no adversário com a bola. Os ataques, porém, se resumem a acionar rapidamente esses talentos para que, com espaços, eles decidam. Ou roubando no campo de ataque ou no típico contragolpe.

Há exceções com uma proposta de construção desde a defesa trocando passes. O Santos de Cuca numa reação tardia no Brasileiro e o Flamengo, com Dorival Júnior e antes com Maurício Barbieri, com modelo de jogo que por vezes tangencia o jogo de posição, mas esbarra nas limitações técnicas de seus ''elos fracos'' e na incrível dificuldade para definir grandes jogos.

E temos o Atlético-PR. Com as limitações de quem não conta com grande orçamento para repatriar estrelas, mas na mudança de Fernando Diniz para Tiago Nunes no comando técnico aproveitou parte dos princípios do treinador idealista e se reinventou.

Ainda é um time que preza a posse de bola. No Brasileiro só fica atrás de Flamengo e Grêmio, ainda ''herança'' dos índices muito altos dos tempos de Diniz. Mas adiciona volume, intensidade, movimentação e, o mais importante: contundência.

Tudo com organização. Na execução do modelo baseado no 4-2-3-1, a equipe vai na contramão do futebol jogado por aqui e pensa para atacar. Não se baseia apenas no instinto dos atletas. Pela esquerda, há um revezamento entre Nikão e o mais que promissor lateral Renan Lodi: quando um abre o outro infiltra por dentro.

Pablo é centroavante finalizador, mas também cria espaços com mobilidade. Para Raphael Veiga, talentoso meia central que pisa muito na área do oponente. Assim como Marcelo Cirino infiltrando em diagonal partindo da direita e as aparições dos meio-campistas Bruno Guimarães e Lucho González, argentino que dita o ritmo com passes curtos ou longos. Faz um jogo mais direto quando convém.

Jogada típica de um Atlético Paranaense que gosta da bola, mas sabe fazer um jogo mais direto: passe longo de Lucho González, Pablo abre espaços e Marcelo Cirino dispara em diagonal. Contra o Flu aproveitou a fragilidade defensiva do jovem e promissor ala Ayrton Lucas (reprodução Fox Sports).

Desta forma envolveu o Fluminense na Arena da Baixada e abriu 2 a 0 na ida da semifinal brasileira da Copa Sul-Americana. Mesmo com alguma dificuldade no início pela marcação adiantada e a força nas bolas paradas do time de Marcelo Oliveira, mas aos poucos saindo da pressão com passes certos e enfim se instalando no campo de ataque.

Até Renan Lodi começar a ganhar o duelo de revelações na lateral esquerda contra Ayrton Lucas. Enquanto o ala do 3-5-2 tricolor é mais rápido e intenso no apoio, mas peca demais no posicionamento defensivo, o rubro-negro de 20 anos é equilibrado no cumprimento de suas funções de ataque e defesa. Ainda aparece na área para abrir o placar finalizando duas vezes.

No gol de Renan Lodi, ainda que a jogada tenha sido criada pelo lado oposto, no rebote o lateral esquerdo atacou por dentro e naturalmente Nikão se posicionou mais aberto para abrir o espaço. Movimentação inteligente de quem se organiza para atacar (reprodução Fox Sports).

A melhor das dez conclusões em 45 minutos, seis no alvo que fizeram do goleiro Júlio César o grande destaque do primeiro tempo. O Fluminense reagiu na segunda etapa expondo uma deficiência atleticana desde os tempos de Fernando Diniz: se defende mal quando precisa recuar as linhas. Por isso as dificuldades para vencer fora de casa, especialmente no Brasileiro – ainda que na Sul-Americana tenha eliminado Peñarol e Caracas com grandes vitórias como visitante.

Retomou o controle quando o Flu voltou a deixar espaços pelos flancos e às costas dos volantes que os zagueiros Ibañez, Gum e Digão não deram conta de cobrir. Mesmo perdendo qualidade no passe com a troca do veterano Lucho González pelo volante Wellington, recuperou força ofensiva ao trocar Cirino por Rony. Autor do segundo gol completando cruzamento preciso de Renan Lodi, o melhor em campo.

O bom jogo em Curitiba teve o Fluminense com 56% de posse, mas o Atlético finalizando 17 vezes, dez no alvo, contra 14 do Flu e apenas cinco na direção da meta do goleiro Santos. A eficiência nas conclusões fez a diferença, mas não garante a equipe de Tiago Nunes na final continental. Porque com o Maracanã quente e o time carioca mais intenso e preciso no acabamento das jogadas é possível sonhar com a virada.

Cabe ao Atlético não abdicar do jogo e continuar voltado para o gol. Se atacar com organização no Rio de Janeiro pode fazer história e repetir 2005 com a vaga numa final sul-americana.

(Estatísticas: Footstats)