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Campeão da Série B, Rogério Ceni não pode virar as costas para o Fortaleza

André Rocha

10/11/2018 20h53

Há um costume cruel no Brasil de só prestar atenção no Nordeste quando o Sul e o Sudeste viram as costas. Preconceito injustificável com uma das regiões mais importantes do país em cultura, história e representatividade nos mais variados segmentos.

Rogério Ceni começou a carreira de treinador se impondo o desafio de trabalhar no São Paulo. O maior ídolo da história do clube sofreu em suas primeiras experiências no comando técnico e, por isso, parecia sem grandes perspectivas. O que fazer depois de iniciar no que deveria ser o ponto final?

O Fortaleza foi o destino escolhido. Depois de penar por oito anos seguidos na Série C, o clube cearense conseguiu o acesso e o clima era de mais paz e otimismo. No Cearense, mesmo com boa campanha na primeira fase, o bicampeonato do rival Ceará foi um baque, mas não a ponto de colocar a sequência do trabalho em risco.

O início da Série B foi de ótimos resultados, mas alguma oscilação no desempenho. Rogério Ceni seguia variando escalações e desenhos táticos dentro da sua ideia de ser protagonista. Até notar que precisava ser mais pragmático para não deixar escapar a possibilidade de acesso que parecia cada vez mais palpável.

Ceni entendeu a necessidade de se adaptar ao contexto e, sem perder de vista o desempenho, priorizar o resultado sendo um pouco mais conservador quando necessário. O futebol mais conceitual deu lugar ao jogo por demanda, de respostas jogo a jogo. Para se manter na liderança por 34 rodadas e sempre no G-4.

Time com mais vitórias (20) e menos derrotas (oito). Melhor saldo de gols (19) e vantagem na tabela para garantir a conquista na antepenúltima rodada com a vitória por 1 a 0 sobre o Avaí. Gol de Rodolfo nos acréscimos. Na 34ª havia confirmado o acesso com os 2 a 1 sobre o Atlético-GO. Duas vitórias fora de casa, afirmando a competitividade do time de Ceni.

Jogando em função de Gustagol, artilheiro do time com 12 gols, a quatro de Lucão do Goiás, o goleador máximo da competição. Mas mantendo o cuidado com a bola. Líder absoluto em posse e passes certos. Mas também o que mais cruza na área adversária. Ataque por baixo e pelo alto. Defensivamente, só desarma menos que o Vila Nova e é o que comete menos faltas entre os 20 times. Time bem posicionado e consciente.

Conquista com autoridade que muito provavelmente colocará Rogério Ceni na roda de especulações de treinadores para clubes do "eixo" pensando em 2019. Mas ainda que apareça uma proposta interessante financeiramente e nas condições de trabalho, o jovem treinador deve seguir no clube que o projetou e agora terá ainda mais moral e autonomia.

Em São Paulo, Rio de Janeiro ou Minas Gerais, o jovem comandante será cobrado e num período de turbulência pode ter sua imagem atrelada ao São Paulo e a primeira experiência mal sucedida lembrada com mais frequência que o triunfo no Fortaleza.

Não é hora para entrar na vala comum e virar as costas para o Nordeste. Ceni pode e deve fazer diferente.

(Estatísticas: Footstats)

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.