Blog do André Rocha

Ajustar seleção com Arthur, Coutinho e Neymar é o desafio de Tite para 2019

André Rocha

Há um mito no Brasil de que basta escalar os melhores de cada posição que eles se entendem em campo. Vem dos tempos das ''Feras do Saldanha'' ou, pouco tempo depois, da Copa do Mundo de 1970. Com outra lenda, a dos ''cinco camisas dez'' – leia mais AQUI.

Mesmo há quase meio século não fazia muito sentido, já que no México o lateral Marco Antonio foi reserva de Everaldo, este menos qualificado tecnicamente, mas que defendia melhor e dava liberdade para Carlos Alberto Torres apoiar do lado oposto e os canhotos Gérson, Rivelino e Tostão podiam trabalhar ofensivamente pela esquerda.

Equilibrar setores e combinar características são justamente os grandes desafios de Tite na remontagem da seleção brasileira no novo ciclo até 2022. Mas que tem uma etapa decisiva no ano que vem com a disputa da Copa América em casa. Como sempre, tudo fica condicionado ao resultado final, sem avaliar evolução e potencial de crescimento.

Mas parece claro que o desempenho pós-Copa não foi dos mais empolgantes. Talvez em resultados: seis vitórias, 12 gols marcados, nenhum sofrido. 50% na bola parada, nove com participação direta de Neymar – seis assistências e três gols.

Em campo, porém, fica nítido que o encaixe das peças não é tão simples. Começando pelo novo titular do meio-campo: Arthur vai ganhando cancha internacional atuando pelo Barcelona e também minutos com a camisa verde e amarela para se soltar. É o jogador que dá o ritmo e o tempo do jogo, muitas vezes com passes para o lado e para trás. Faz sua equipe controlar pela posse, desde o período vitorioso no Grêmio.

Mas para completar o trio do setor com Casemiro é necessário um companheiro de estilo mais direto, com infiltração. Não é Renato Augusto, nem Paulinho. Fred tem características parecidas com as deArthur. Talvez Allan, novidade da última lista e que atuou assim contra Camarões. Perdeu duas boas chances, mas vai se soltando.

E Philippe Coutinho? Bem, este é mais um problema de ter atletas talentosos, porém com características parecidas e ocupando o mesmo espaço. No Barcelona se acertou justamente abrindo vaga para Arthur no meio e formando o ataque com Messi e Suárez. Exatamente na faixa deixada por Neymar que Dembelé não conseguiu ocupar.

Na seleção, Coutinho atuando por dentro oscila muito. É capaz de ajudar a equipe com um belo passe para gol, mas também deixar espaços às costas e sobrecarregar Casemiro, como aconteceu na Copa. Não parece à vontade, também por causa de Neymar.

O camisa dez e estrela máxima da seleção deixou de ser o atacante no Barça que recebia os passes e inversões de Messi e infiltrava em diagonal para se juntar a Suárez. No PSG essa função é de Mbappé. Neymar agora faz a do gênio argentino no ex-clube: ponta articulador. Recebe, conduz, dribla e aciona um companheiro em velocidade.

Com Tomas Tuchel na maioria das partidas da atual temporada se transforma mesmo em um camisa dez, com liberdade de ação e chegando de trás. Tite prefere Neymar partindo da esquerda, mas os movimentos são praticamente os mesmos. Agora ele procura mais a bola, não ataca tanto os espaços às costas da última linha de defesa do adversário. Carrega e passa ou corta para dentro e finaliza. Assim como Coutinho.

Soluções? Talvez mudar o desenho tático para o 4-2-3-1 e dar mais liberdade a um dos dois. Melhor Neymar, deixando Coutinho pela esquerda. Ou voltar à ideia do início do trabalho, deslocando Coutinho para o lado direito como ponta articulador, circulando e procurando as costas dos volantes do oponente. Só que agora seriam dois extremos cortando para dentro, afunilando a jogada. O mesmo se a opção for pelo canhoto Douglas Costa à direita.

Para compensar, só com profundidade dos laterais. A má notícia é que Danilo, Fabinho e Filipe Luís não têm como características a intensidade e a rapidez para fazer a ultrapassagem e cruzar do fundo. Nem Marcelo. Só Alex Sandro dos últimos convocados.

Então o Brasil roda a bola no ritmo de Arthur, toca, toca, toca…e dificilmente encontra o passe que clareia tudo, quebra as linhas de marcação e encontra o homem livre para servir ou concluir. É um time travado na maior parte do tempo. Lógico que há a questão mental, de ressaca da derrota para a Bélgica na Rússia, do desgaste da imagem da seleção, do treinador e do craque. Mas não é só isso que vem tornando os jogos enfadonhos, sonolentos.

A boa notícia é Richarlison. Atacante rápido, móvel e finalizador. Assim como Gabriel Jesus, procura os espaços para infiltrar, porém vivendo um melhor momento que o jogador do Manchester City. Firmino é mais um jogador de passe e que procura a bola para só depois acelerar. Como Neymar, Coutinho, Douglas Costa, Willian…

Defensivamente os problemas parecem bem menores. Tite organiza e compacta bem os setores, a resposta com pressão depois da perda da bola é positiva e opções para goleiro e zaga não faltam. Para ficar ainda mais tranquilo só falta um reserva confiável para Casemiro. Por mais que Fernandinho renda no City de Guardiola o histórico na seleção joga contra.

Há qualidade, como quase sempre nas gerações brasileiras. O desafio de Tite é seguir com seu trabalho de estudo e observação, vendo partidas e treinos dos atletas nos clubes e fazendo experiências nos jogos. Esquentar o cérebro até montar o quebra-cabeças. Cada peça em seu lugar e todas funcionando para o time. Em função de Arthur, Coutinho e Neymar, os diferentes.

Sem fórmula mágica,  mas precisando de um ''click'' para fazer tudo fluir melhor a partir do ano que vem.