Blog do André Rocha

Abel Braga pode ser o Renato ou Felipão do Flamengo, mas não basta querer

André Rocha

Foto: Nelson Peres/Fluminense

O presidente eleito Rodolfo Landim disse que só pediu títulos a Abel Braga. Este afirma que escolheu o Flamengo porque tinha mais chances de ganhar. Marcos Braz é o novo vice-presidente porque esteve à frente do futebol rubro-negro na última conquista do Brasileiro, em 2009.

É compreensível a sede por taças e obviamente um currículo com experiências bem sucedidas sempre conta a favor. Mas nada garante pelo motivo simples e óbvio que o contexto de 2018 é diferente de tudo que já passou. O futebol mudou, a relação com a torcida não é a mesma por conta das redes sociais e, também por isto, a cabeça dos jogadores também é diferente.

A opção por um treinador mais vivido e bom gestor de pessoas tem relação direta com o sucesso recente de Renato Gaúcho no Grêmio e Luiz Felipe Scolari no Palmeiras. Comandantes de perfil ''paizão'', que sabem dosar cobrança e proteção. Com história para alargar as costas e servir de escudo, enquanto os técnicos mais jovens costumam sucumbir ou balançar muito na primeira turbulência política ou de vestiário.

Os grandes obstáculos para os veteranos costumam ser os conceitos de jogo ultrapassados e os métodos de treinamento obsoletos. Não faltam relatos de bastidores de atletas batendo porta de vestiário ou até debochando na cara de técnico depois de um coletivo de onze contra onze à moda antiga, sem nenhuma intensidade. O jogador hoje sabe bem o que quer.

Renato Gaúcho encontrou em Alexandre Mendes e Felipão em Paulo Turra os auxiliares capazes de fazer essa espécie de ''tradução'' para o campo. Os técnicos traçam as estratégias no macro e no micro e sabem mobilizar o elenco. Os assistentes fazem acontecer em treinamentos estimulantes, com as devidas repetições e intensidade semelhante à do jogo.

Abel Braga tem Leomir, seu auxiliar há 20 anos. Difícil avaliar se a dupla terá a mesma capacidade de se reinventar no olho do furacão. Pedro Moreno, que comandou o Fluminense na última rodada do Brasileiro, chega para reforçar a comissão técnica do Fla, mas sem o mesmo status do assistente mais próximo.

Abel é observador e intuitivo. Em sua passagem pelo clube em 2004 teve boas sacadas, como Felipe na ponta-direita e Ibson saindo diretamente da base para titular no profissional. No Flu campeão brasileiro de 2012 puxava Thiago Neves do lado esquerdo para circular às costas dos volantes adversários. Dizia que não aceitava ter inferioridade numérica no meio-campo. Já em 2018, pelas circunstâncias, não abriu mão da linha de cinco na defesa, muito utilizada atualmente na Europa.

Em sua carreira já montou times ofensivos e mais reativos. Com elenco mais farto tem condições de montar uma equipe inteligente, que se adapte às necessidades de cada partida. Abel também foi o primeiro a ressaltar a necessidade de focar jogo a jogo no Brasileiro por pontos corridos. Sem metas até no curto prazo, o compromisso mais importante é sempre o próximo. Virou tendência.

O Flamengo não deve priorizar nada em 2019. Todos querem taças e o investimento da nova direção deve ser proporcional à ''fome''. Abel tem cancha e até uma dose de malandragem para encarar a responsabilidade, mas tirando o peso desnecessário. Pode, sim, repetir Renato e Felipão sendo mais um veterano a se impor no mercado.

Mas ao contrário do que parece pensar Landim, não basta querer ou ter história para contar. É preciso ter um plano e também métodos para executá-lo. A experiência conta, mas não pode ser tudo. 2019 ainda é uma página em branco.