Blog do André Rocha

Para Alecsandro, “falso nove” é uma mentira. O que diz a história do jogo?

André Rocha

– Camisa nove pra mim tem que fazer gol. Quem veste esse número é o cara mais próximo ao gol. Quando isso não acontece e o treinador arma o jogo para isso acontecer, vai dar errado. Está se usando falso nove, isso não existe. Ou cara é nove ou não é. Vou confessar uma coisa, os treinadores têm medo de dizer que estão sem centroavante, estão jogando com meia e falam que estão com falso nove. Os treinadores não falam para a imprensa não pegar no pé, tudo mentira. O camisa nove tá em falta, o falso tem um monte por aí.

Palavras de Alecsandro, centroavante de 37 anos, em sua primeira entrevista como jogador do São Bento. Filho de Lela, irmão de Richarlison, com passagem por Atlético Mineiro, Vasco, Internacional, Flamengo e Palmeiras. Talvez incomodado com a perda de espaço ao longo do tempo. Quem sabe embalado pelo senso comum – seguido por muita gente boa, boleiro ou não – que está até em música: ''o centroavante é o mais importante''.

Foi tantas vezes, com Romário, Ronaldo, Careca, Van Basten, Gerd Muller, Hugo Sánchez e muitos outros que eternizaram a função, que Dadá Maravilha chamava de profissão junto com a do goleiro. Ainda decisivo no país. Desde Edmundo em 1997, o artilheiro do Brasileiro, ou um deles quando o posto de goleador máximo era dividido, jogava como centroavante: Romário, Adhemar, Guilherme, Viola, Magno Alves, Luís Fabiano, Dimba, Washington, Souza, Josiel, Keirrison, Kléber Pereira, Adriano, Diego Tardelli, Jonas, Borges, Fred, Éderson, Ricardo Oliveira, Jô, Henrique Dourado e Gabriel Barbosa. O próprio Edmundo jogou mais adiantado que Evair naquele Vasco.

Fundamental em vários momentos, mas não obrigatório como ele faz parecer. E a história do jogo mostra vários exemplos de jogadores que desequilibraram atuando como ''falso nove''. Ou seja, no centro do ataque, mas com liberdade de movimentação, caindo pelos lados,  circulando entre a defesa e o meio-campo do adversário ou recuando e abrindo espaços para as infiltrações dos companheiros. Craques ou não que contribuíram significativamente para a evolução do esporte.

Desde Matthias Sindelar do Wunderteam da Áustria dos anos 1930, passando por Nandor Hidegkuti da Hungria de 1954, Alfredo Di Stéfano no Real Madrid multicampeão dos anos 1960, Johan Cruyff no Ajax, Barcelona e na seleção holandesa nos anos 1970. Saindo da posição mais adiantada sem a bola para circular por todo o campo. Armando, marcando, atacando o espaço certo. Pensando o jogo.

No Brasil, a segunda metade dos anos 1980 apresentou um exemplo clássico de adaptação para passagem de bastão. Roberto Dinamite, maior artilheiro da história do campeonato brasileiro com 190 gols, recuou no centro do ataque do Vasco comandado por Antonio Lopes para servir um jovem centroavante adaptado à ponta esquerda: Romário. O Baixinho, em início de carreira, aprimorou as infiltrações em diagonal que o consagrariam ao longo da carreira para receber os passes do camisa dez cruzmaltino.

Inspiração para Vanderlei Luxemburgo, que trabalhou como auxiliar de Lopes em outros clubes, na década seguinte adaptar Evair, que tinha Dinamite como grande ídolo, para atrair a marcação dos zagueiros e acionar Edmundo e Edilson, depois Rivaldo, infiltrando em diagonal no Palmeiras bicampeão paulista e brasileiro em 1993 e 1994.

Outro time ainda mais vencedor foi o São Paulo de Telê Santana. Bicampeão da Libertadores e Mundial. Quem era o centroavante num ataque com Cafu, Raí, Palhinha e Muller? Sem contar o Brasil de 1970, considerado o maior time de todos os tempos, com Tostão também adaptado ao centro do ataque. Aproveitando a experiência no Cruzeiro que atuava com dois pontas abertos e o ''ponta de lança'' revezando com Dirceu Lopes na chegada à área adversária. Na seleção de Zagallo, procurava o lado esquerdo deixando o centro para as infiltrações de Pelé ou as diagonais de Jairzinho partindo da ponta direita.

Chegar na área como elemento surpresa e não a referência do ataque, mas também dos defensores. Foi o que consagrou todos eles. Também o que fez o futebol de Messi explodir no Barcelona de Pep Guardiola, especialmente na temporada 2010/11. O gênio argentino trabalhava entre linhas, recuava para trabalhar com Busquets, Xavi e Iniesta – formando o que provavelmente foi o melhor ''losango'' de meio-campo em todos os tempos – e aparecia na área para finalizar ou servia os pontas Pedro e Villa. Time que só não repetiu a tríplice coroa de 2008/09 por causa de um gol do Real Madrid na prorrogação da final da Copa do Rei.

De Cristiano Ronaldo, outro que é referência técnica de qualquer ataque que faça parte, mas precisa de um parceiro mais fixo na área adversária para fazer o ''trabalho sujo''. Na Juventus é Mandzukic que luta com os zagueiros e fica no centro para o português se desmarcar da ponta para dentro e finalizar. Mais um caso em que o centroavante não é a estrela.

Com linhas de marcação compactas, concentração defensiva e muita análise de desempenho em clubes e seleções, o jogador mais estático, o centroavante ''raiz'' tende a encontrar mais dificuldades. O time fica mais previsível e os companheiros induzidos a alimentar aquele que só aparece quando vai às redes. A função vai se transformando com Lewandowski, Diego Costa, Harry Kane, Luis Suárez e Edinson Cavani. Todos móveis e inseridos num trabalho mais coletivo.

Até Mohamed Salah vai se aprumando na função no Liverpool de Jurgen Klopp. Antes um atacante de lado, explora a velocidade, intensidade e capacidade de se deslocar e abrir espaços para que o ataque ganhe versatilidade e mais um elemento. Agora um quarteto que pode ter Shaqiri, Wijnaldum ou Keita junto com Mané e Firmino, que cresce quando recua como meia, mas também se destacava…como ''falso nove''.

No Paulista que o ''Alecgol'' vai disputar, o atual campeão Corinthians encontrou o melhor encaixe no torneio e na temporada alternando Jadson e Rodriguinho na frente. Uma espécie de 4-2-4 sem referência ou o tipico homem-gol.

Alecsandro está na reta final da carreira como jogador. Se quiser se manter no meio do futebol é melhor abrir um pouco a mente e aceitar uma verdade inexorável deste esporte que tanto amamos: há várias formas de jogar e vencer. Muitas verdades e poucas mentiras. Sem dogmas, nem preconceitos.