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Corinthians e Vasco vencem clássicos no conforto de jogar sem a bola

André Rocha

03/02/2019 08h01

Parece uma lógica simplista. Talvez até seja. Mas a verdade do campo é que no futebol jogado no Brasil atualmente, o time que espera e reage ao adversário tende a errar menos e vencer.

Ainda mais em um início de ano, com pré-temporada curta e dois jogos por semana desde o começo dos estaduais para os grandes. Agrava a prática de tempos recentes: se organizar com os conceitos mais modernos para se defender – compactação, intensidade, pressão no homem da bola, atenção nas coberturas – e ainda entregar tudo ao talento e instinto do jogador para definir as jogadas no ataque.

O Palmeiras teve 63% de posse, o Fluminense 70%. Mas foram poucos os momentos de volume, fluência na construção das jogadas criando espaços em um sistema defensivo fechado. O Corinthians no 4-1-4-1 com Mateus Vital e Jadson pelas pontas, Ramiro e Sornoza por dentro e Ralf entre as linhas de quatro. O Vasco no 4-2-3-1 que alternava Yago Pikachu e Thiago Galhardo na direita ou por dentro, mais próximo de Itamar, e Marrony como válvula de escape pela esquerda.

O time de Luiz Felipe Scolari repetiu a dificuldade de trocar passes para criar superioridade numérica no setor da bola e infiltrar. Foi assim também na derrota em casa para o Cruzeiro na Copa do Brasil 2018. Se sair atrás no placar o campeão brasileiro costuma se complicar. Porque é apressado e não resiste à tentação de resolver rapidamente a jogada com cruzamentos. Foram 53 no total. Muitas bolas longas para os pontas Dudu e Carlos Eduardo. Finalizou 26 vezes, mas apenas uma no alvo. O Corinthians acertou quatro na direção da meta de Weverton. Nas redes com Danilo Avelar, completando jogada de bola parada.

No estranho gramado do Mané Garrincha, o Flu de Fernando Diniz pode reclamar de um pênalti sobre Bruno Silva não marcado no primeiro tempo e lamentar as duas bolas no travessão do goleiro Fernando Miguel entre as 12 finalizações da equipe tricolor. Mas criou pouco, só melhorando no segundo tempo depois da entrada de Marquinhos Calazans na vaga de Ezequiel pela direita. Fazendo todo o corredor, o jovem lateral permitiu que Luciano saísse da ponta e se juntasse a Yoni González na frente, criando problemas para os zagueiros Werley e Leandro Castán.

O Vasco teve mais concentração defensiva e coordenação dos setores sem a bola para negar as infiltrações por dentro, no "funil". Definiu o clássico em Brasília no pênalti em jogada de Raul Cáceres que o zagueiro Nathan Ribeiro cortou com o braço. Pikachu bateu no meio do gol e garantiu o Vasco com 100% na fase de grupos da Taça Guanabara. A vantagem, em tese, é fugir do Flamengo e encarar uma equipe de menor investimento na semifinal.

Fabio Carille conseguiu sua sétima vitória sobre o Palmeiras em oito confrontos. O retrospecto impressiona, mas a receita é simples e imutável: esperar, defender, reagir e vencer. Funcionou no Allianz Parque e com Alberto Valentim no Mané Garrincha. Triunfos construídos essencialmente pelo conforto de não ter a bola. Parece um paradoxo, mas no Brasil vem sendo a solução.

(Estatísticas: Footstats)

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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