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Neymar é o melhor jogador brasileiro pós-Pelé, mas não o maior

André Rocha

13/02/2019 11h31

Imagem: Reprodução Placar

A edição especial de fevereiro da revista Placar rende homenagem aos 10 anos de carreira de Neymar no futebol profissional celebrando o craque do PSG como "o maior jogador brasileiro pós-Pelé". Será?

Quem lê este blog sabe que aqui não há perseguição ao camisa dez da seleção brasileira e do Paris Saint-Germain. Pelo contrário, os textos procuram situar bem no contexto do futebol nacional e mundial a estrela solitária do país cinco vezes campeão do mundo.

Aliás, este é um fator a ser considerado na análise. Todos os nossos protagonistas sempre tiveram alguém para dividir responsabilidades e holofotes: o jovem Pelé teve Didi e Garrincha, em 1970 o veterano camisa dez dividiu com Gerson, Tostão, Rivelino e Jairzinho os méritos pelo tricampeonato mundial. Depois Rivelino viu Zico surgindo, mais tarde o Galinho seria a estrela junto com Sócrates e Falcão na equipe de Telê Santana.

No México, Careca surgiu como protagonista e logo ganhou a companhia de Romário e Bebeto, destaques do tetra em 1994. Depois Ronaldo Nazário com Rivaldo e em seguida Ronaldinho Gaúcho, que teria Kaká como parceiro.

Neymar segura a bronca desde 2010. No "vácuo" de Ronaldinho, Kaká, Robinho e Adriano que caíram de produção no mais alto nível, cada um por seus motivos, e não lideraram uma renovação na seleção brasileira. De lá para cá, desde Paulo Henrique Ganso a Philippe Coutinho e Gabriel Jesus, ninguém conseguiu de fato e por um bom período tirar este peso misturado com privilégio do nosso craque maior.

Mas respondendo objetivamente a pergunta do final do primeiro parágrafo, este blogueiro diria que Neymar é, sim, o melhor desde Pelé. Não o maior.

A análise sobre quem é melhor é absolutamente pessoal e subjetiva, envolve preferências pessoais, estilo, estética. Obviamente considerando jogadores dentro de uma mesma "prateleira" ou ao menos próxima. Neste contexto, Neymar pode ser colocado acima de Zico, Careca, Romário, Rivaldo, os Ronaldos e Kaká.

Porque é arco e flecha, arma e finaliza. Tem tudo para se tornar o segundo maior artilheiro da seleção, só atrás de Pelé. Provavelmente com média inferior a Ronaldo, Zico e Romário, mas um feito considerável dentro de um cenário muito mais parelho. Sem, por exemplo, as goleadas sobre seleções semiamadoras de outros tempos.

Neymar tem um repertório de jogadas superior aos "concorrentes". E jogando com muito menos tempo e espaço para pensar e executar. 60 gols e 36 assistências em 96 partidas com a camisa verde e amarela. Em clubes(Santos, Barcelona e PSG), 291 bolas nas redes e 148 passes para gols em 469 jogos. Muita regularidade e interferência nos jogos e no desempenho de suas equipes.

Contestado? Obviamente, como todos os outros, fora Pelé, antes de vencer a primeira Copa do Mundo. Talvez a memória afetiva de muitos não permita recordar, mas Romário, Rivaldo e os Ronaldos, para ficar apenas nos destaques dos últimos dois títulos, tiveram sua capacidade colocada em xeque.

O Baixinho depois da expulsão tola contra o Chile em 1989 e a irresponsabilidade de jogar peladas com gesso na perna que prejudicaram a recuperação de uma fratura a tempo de disputar a Copa de 1990 em bom nível. Rivaldo foi execrado na Olimpíada de 1996 e, mesmo jogando bem no Mundial de 1998, conviveu com críticas por não render na seleção o mesmo que nos clubes até brilhar em 2002.

O Fenômeno aturou vaias em 1996, ganhou fama de "amarelão" em 1998 e só se redimiu com a conquista na Ásia. Ronaldinho também era cobrado para mostrar o mesmo rendimento do Barcelona e, depois de ser demonizado pela derrota em 2006 nunca mais recuperou prestígio na seleção.

Mas, ainda assim, são maiores que Neymar. Porque venceram a Copa do Mundo. Um feito que separa meninos de homens. E aumentam a distância porque o craque de hoje insiste em não amadurecer, principalmente fora de campo. Comportamento, posturas e palavras que impedem que se torne um ídolo nacional. E neste aspecto fica atrás de outros que também não levantaram taças, como Sócrates e Zico.

O posicionamento como figura pública também engrandece e Neymar vive numa espécie de bolha, no próprio mundinho. Eterno adolescente, mais produto que homem. Uma escolha que traz seus prazeres, mas também prejuízos. Ele parece não se importar, só quer se divertir jogando e com os "parças". A vida, porém, não é só isso.

Neymar é o único com títulos de Libertadores, Liga dos Campeões e Mundial de Clubes. Não conquistou a Bola de Ouro porque compete com Messi e Cristiano Ronaldo, que provavelmente roubariam prêmios individuais dos brasileiros contemplados no passado. É craque com momentos geniais. O mais talentoso a surgir em nossos campos desde que Pelé parou de jogar, gostem os saudosistas ou não desta opinião.

Mas para ser o maior é preciso crescer. Eis o ponto que Neymar não parece entender. Ou não quer enxergar. Será que dá tempo depois dos 27 anos?

 

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.