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Revolução de Tuchel no PSG passa por estratégia, mas também pelo espírito

André Rocha

13/02/2019 04h04

É injusto afirmar que as ausências dos lesionados Cavani e Neymar facilitaram o trabalho de Thomas Tuchel para armar um PSG mais disciplinado taticamente para enfrentar o redivivo Manchester United de Ole Gunnar Solksjaer no Old Trafford pela ida das oitavas de final da Liga dos Campeões.

No triunfo sobre o Liverpool por 2 a 1 em Paris pela fase de grupos, que praticamente sacramentou a vaga para o mata-mata, o time francês mostrou organização e entrega na execução do plano de jogo. Com Neymar voltando para formar a segunda linha de quatro pela esquerda e, muitas vezes, Cavani recuando para ajudar no combate e liberar Mbappé para acelerar nos contragolpes.

A revolução de Thomas Tuchel no Paris Saint-Germain, porém, não apresenta seus efeitos em todas as partidas. Até porque há um abismo de vantagem na Ligue 1, a ponto do time se desconcentrar e acabar eliminado na Copa da Liga para o Guingamp. No confronto seguinte pela competição por pontos corridos, 9 a 0 no mesmo adversário, com o pé no acelerador durante praticamente todo o jogo. Para não deixar dúvidas de quem é o melhor time.

Eis o segredo: espírito. Se ao longo da temporada o PSG não se depara com grandes desafios, o grupo precisa estar preparado para quando chegar a partida importante, ou com algo em jogo além dos três pontos. A falta de hábito não pode ser um "álibi" a cada eliminação, senão o sonho europeu ficará sempre comprometido diante de clubes que participam de ligas mais fortes.

Na vitória por 2 a 0 em Manchester, o time de Tuchel foi vibrante, intenso, concentrado. Também valente, como Di María que enfrentou as provocações da torcida do seu ex-time sem se deixar intimidar e foi o destaque da partida com assistências para os gols de Kimpembe e Mbappé. Quando Ashley Young jogou o argentino em uma grade de proteção fora do campo, Marquinhos e seus companheiros chegaram junto para mostrar que na força e no grito o time da casa não venceria.

Pode parecer conversa fiada de quem diz no Brasil que "Libertadores é guerra", mas no caso do PSG é bastante emblemático. Porque nas últimas eliminações, os gigantes Barcelona e Real Madrid passaram por cima. O primeiro com ajuda da arbitragem, sim, mas ambos na capacidade de se impor, fazer o oponente sentir medo. E o time francês dobrou os joelhos.

Agora não. Ou não tem sido assim nos jogos grandes. É claro que lendas como Buffon e Daniel Alves dão "casca" a qualquer time do mundo. O adversário respeita. Mas não é só isso. O PSG com Tuchel está diferente.

No duelo entre os treinadores, Solksjaer parece ter atingido seu teto. Depois do efeito do "fato novo", de reintegrar Pogba e repaginar o time, a impressão é de que faltou repertório ao United quando se viu diante de uma equipe que conhecia suas virtudes e defeitos e tinha qualidade para responder em alto nível. Perdeu a invencibilidade logo no duelo mais importante.

Também  perdeu com Lingard, o atacante que mais trabalha sem bola e que muitas vezes recua para compensar a "desconcentração" de Pogba na fase defensiva, aberto pela direita. Provavelmente para acompanhar Bernat e não permitir a formação de uma dupla com Di María para cima de Young. Rashford acabou sacrificado entre os zagueiros.

Depois de um primeiro tempo equilibrado, o gol de Kimpembe deixou a disputa à feição do PSG. Os Red Devils adiantaram a marcação, mas muitas vezes deixando de pressionar o homem da bola e dividindo o time em dois setores e deixando um grande buraco na intermediária. Era sair da pressão e chegar com vantagem numérica do ataque. Na descida mais bem coordenada, passe longo para Di María e assistência para Mbappé.

Não importa muito se o desenho tático era o 3-4-3 ou o 4-1-4-1. O mais relevante foi a estratégia de posicionar Marquinhos esperando Pogba e Kehrer, Thiago Silva e Kimpembe atentos aos movimentos de Rashford e Martial, depois Alexis Sánchez. Porque Lingard, depois Mata, estava preocupado com Bernat, que abria o campo pela esquerda e Daniel Alves à direita. Verratti organizava e Draxler participava da construção e tentava se juntar a Mbappé. A joia  francesa foi o terror dos zagueiros Bailly e Lindelof na velocidade e podia ter definido o confronto num contra-ataque que De Gea parou com grande defesa.

PSG se impôs com organização e estratégia, negando espaços a Pogba com Marquinhos atento às brechas entre as linhas defensivas e Bernat atacando o setor de Lingard. Daniel Alves abria o campo do lado oposto e Mbappé acelerava contra Bailly e Lindelof (TacticalPad).

Vitória com autoridade pelo segundo tempo impecável e vaga nas quartas encaminhada, ainda mais com a expulsão de Pogba no final do jogo. Para confirmar a guinada do PSG. Se falta camisa e tradição na Champions, cabe ao time construir sua fortaleza e impor respeito aos adversários jogo a jogo, disputa a disputa. Com ou sem Neymar, Cavani ou qualquer outro.

Thomas Tuchel vem mostrando que sabe como fazer. Na tática e no olhar faminto de seu time. Convém respeitar.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.