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Por que a ascensão de Vinicius Júnior prejudica Marcelo no Real Madrid

André Rocha

24/02/2019 01h30

Foto: Reprodução/Instagram

Quando Zidane e Cristiano Ronaldo deixaram o Real Madrid após o tricampeonato da Liga dos Campeões, imaginava-se que Florentino Pérez promoveria uma reformulação radical no elenco merengue, movimentando o mercado de verão para a temporada 2018/19.

Amigo muito próximo do craque português, Marcelo era um dos nomes especulados para seguir o mesmo caminho e jogar pela Juventus. Não aconteceu, assim como a ida às compras do clube espanhol foi tímida. O Real seguiria com Julen Lopetegui a linha de trabalho que investia em continuidade e aproveitamento de jovens, formados no clube ou não.

A mudança para um estilo mais alinhado ao rival Barcelona combinada com a natural estagnação de um grupo saturado de conquistas recentes minou o trabalho do treinador que já chegou com a imagem desgastada pelo processo que levou à demissão da seleção espanhola. Não deu liga.

O Real resolveu apostar novamente em uma solução caseira: Santiago Solari. Com ideias mais próximas das de Carlo Ancelotti e Zinedine Zidane, fazendo a equipe se adaptar aos contextos das partidas e menos preocupada com imposição de estilo, as oscilações diminuíram e o time voltou a ser competitivo no Espanhol e segue vivo na Copa do Rei e na Liga dos Campeões. Sem contar o título mundial em dezembro.

Com a lesão de Gareth Bale, Vinicius Júnior ganhou mais oportunidades no time principal. Atuando bem aberto pela esquerda e, por conta de sua adaptação tática ao futebol europeu e não estar ainda fisicamente pronto para jogar no mais alto nível, com menos atribuições defensivas. A forte personalidade em campo, mesmo com apenas 18 anos, fez com que passasse a centralizar as jogadas, apesar da afobação e muitos erros técnicos no acabamento das ações de ataque.

Na prática, mudou o eixo ofensivo da equipe. O Real que fez história tinha Cristiano Ronaldo partindo da esquerda para infiltrar em diagonal. Quando necessário diante de retaguardas mais fechadas, Marcelo, Isco ou Asensio abria para dar amplitude, esgarçar as linhas de defesa. Sempre com o suporte de Toni Kroos e cobertura de Sergio Ramos.

Na recomposição, Cristiano quase sempre ficava com Benzema na frente e duas linhas de quatro bloqueavam os ataques dos rivais, com Isco, Asensio ou até Kroos fechando o setor esquerdo e ajudando Marcelo.

Com Vinicius entre os titulares surgiu a necessidade de maior sustentação defensiva do lateral e dinâmica na ida e volta. Porque a passagem pelo flanco ou por dentro desafoga o ponteiro brasileiro. O jovem Sergio Reguilón, de 22 anos, tem entregado mais desempenho e ganhado mais chances de Solari. Nos últimos 14 jogos da liga espanhola foi titular em nove e ficou de fora de três partidas por lesão. Titular na vitória sobre o Ajax pela Champions, deixando Marcelo no banco.

Segundo o site Whoscored.com, Reguilón supera Marcelo em desarmes, interceptações e nas disputas pelo alto na defesa. Já o brasileiro é melhor que o espanhol nas virtudes que o transformaram no melhor lateral do mundo nos últimos anos: dribles, finalizações, passes e cruzamentos certos. O rendimento, porém, não tem sido bom no geral.

Marcelo, que vai completar 31 anos em maio, vem enfrentando os problemas naturais da passagem do tempo e também por suas características. O posicionamento e a concentração da transição defensiva nunca foram pontos fortes do lateral. Na Copa do Mundo, as dificuldades ficaram bem nítidas quando Casemiro ficou de fora por suspensão contra a Bélgica e ele retornou à seleção. Um dos pecados de Tite na eliminação brasileira.

Talvez as dúvidas quanto a um novo ciclo de Copa do Mundo e o clima de fim de festa em Madri, apesar do contrato até 2022, tenham acelerado e acentuado a queda de desempenho de Marcelo, inclusive no aspecto físico. É bem possível que o ciclo tenha passado do ponto. Por isso a irritação com a reserva e as críticas quando não vai bem, o que tem sido uma constante nas últimas partidas, e a volta das especulações de uma saída para a Juventus no final da temporada.

Pode ser a melhor solução. Porque Vinícius Júnior vai evoluindo e encontrando em Reguilón um ótimo parceiro pela esquerda. O futuro do Real Madrid. A lamentar que a ascensão de um brasileiro represente a queda de outro que está na história do maior clube do mundo, mas precisa de mudanças, talvez até de posição, para retomar a carreira mais que vencedora.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.