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Mais Gérsons, menos Kepas. A independência necessária do jogador de futebol

André Rocha

26/02/2019 13h17

"Agora vamos ouvir o que o professor vai falar para a gente virar esse jogo no segundo tempo".

Não é raro ouvir esta frase de algum jogador brasileiro na saída para o intervalo. Quase sempre deixa a impressão de que o time que saiu perdendo ao final dos primeiros 45 minutos cometeu erros que os atletas não conseguiram corrigir em campo. É claro que as paradas para hidratação aos 20 minutos minimizam esta ideia, mas a imagem segue forte.

Quem lê este blog sabe que o saudosismo não tem muita voz por aqui. Mas é impossível negar a saudade dos tempos em que os jogadores tinham mais autonomia ou iniciativa para se acertar em campo e encontrar soluções para os problemas criados pelo adversário.

O exemplo mais clássico é o de Gérson, o "Canhotinha de Ouro" campeão mundial em 1970. Nas imagens disponíveis e nos próprios relatos dele e de seus colegas, era possível ver o meio-campista conversando, gesticulando e às vezes até pegando o companheiro pelo braço para reposicioná-lo.

Na semifinal da Copa de 1970 contra o Uruguai, ao se perceber muito marcado, Gérson aproveitou uma paralisação no jogo e propôs uma troca, sem consultar Zagallo: ele faria a função de volante e liberaria Clodoaldo para apoiar Jairzinho, Pelé, Tostão e Rivelino. Tabelando com Tostão, infiltrando e pisando na área, o camisa cinco marcou o gol de empate no final do primeiro tempo. O início à virada por 3 a 1 que colocou o Brasil na final do Mundial no México.

Mudança que partiu do jogador, que nem era o capitão da seleção. Ninguém se sentiu melindrado ou com a autoridade questionada. A liderança se fazia natural para melhorar o trabalho coletivo. Pela inteligência do Gérson, mas também porque havia o costume do jogador interferir diretamente na tática e na estratégia.

Infelizmente, nos últimos tempos a manifestação mais notável de independência do atleta em relação ao treinador, no Brasil e no exterior, tem sido a recusa de ser substituído. Não é frequente, mas quando acontece chama muito a atenção. De Paulo Henrique Ganso pelo Santos contra o Santo André na decisão do Paulista de 2010 ao goleiro Kepa pelo Chelsea na final da Copa da Liga Inglesa contra o Manchester City.

No evento mais recente, um desrespeito do jogador a Caballero, o substituto que já estava pronto para entrar. Mas também ao técnico Maurizio Sarri. Por conta da ascendência quase total do treinador sobre seus comandados, a atitude de Kepa é mais chocante. Gera repercussão principalmente porque escancara a insubordinação. No caso de Sarri, também a falta de moral dentro de um cenário de crise.

Por outro lado, se houvesse um Gerson em campo pelos Blues talvez o problema fosse solucionado por um interlocutor. Apenas David Luiz se dirigiu a Kepa. Só Rudiger tentou acalmar Sarri. Pouco diálogo que pode ser a prova material de um elenco rachado. Mas também da cultura recente de jogadores que não participam do processo descisório em campo. Só em casos extremos. Mesmo com bom entendimento e estimulado a tomar decisões no jogo.

Culpa dos treinadores também, que passaram a centralizar decisões e aceitar por conveniência um aumento da exposição e também da responsabilidade. Na ponta do lápis, vale mais a pena, inclusive financeiramente, ganhar os louros nas vitórias e o chicote nas derrotas. Se for demitido, dependendo do contrato, ainda pode receber uma multa gorda pela rescisão ou até seguir na folha de pagamento do clube por um bom tempo.

Um equívoco, sem dúvida. Ninguém defende a liderança caótica, com todo mundo gritando e ninguém com a razão. Mas deixar todas as decisões por conta do treinador e da comissão técnica é até contraproducente na maioria dos casos. Um tempo perdido que pode comprometer desempenho e resultado.

Por exemplo, a mudança do Brasil no segundo tempo contra a Bélgica na Copa de 2018. Não há imagens de um companheiro acalmando Fernandinho depois do gol contra. Por que só no intervalo houve a definição de uma marcação individual sobre os três atacantes do oponente na transição defensiva – Fagner em Hazard, Fernandinho sobre De Bruyne, Miranda duelando com Lukaku e Thiago Silva fazendo uma espécie de sobra?

Poderia ter evitado o desequilíbrio que gerou vários contragolpes belgas, inclusive o do segundo gol. Tite revezou o capitão, estimula as lideranças polifônicas, mas a cultura segue lá. Só agir depois de "ouvir o professor".

É pouco em um futebol tão profissional. Precisamos de mais iniciativa com visão do todo e menos rebeldia irresponsável, egoísta. Mais Gérsons e menos Kepas. A independência que se faz necessária em nossos campos.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.