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Palmeirense, você quer mesmo Dudu na seleção?

André Rocha

09/03/2019 09h54

Foto: André Durão/Globoesporte.com

Vinícius Júnior foi cortado por conta da lesão na derrota do Real Madrid para o Ajax na Liga dos Campeões. Tite convocou David Neres, um dos destaques da mesma partida pela equipe vencedora. Em um bom momento do ponteiro formado pelo São Paulo no futebol holandês.

Dudu ficou de fora mais uma vez. O craque do último Brasileirão, que preferiu ficar no Palmeiras com 27 anos e proposta da China. Ponta que joga pelos dois lados, pode também atuar por dentro. O time depende tanto dele que é o único que não descansa por 90 minutos nas mãos de Luiz Felipe Scolari.

Tite poderia ter convocado para testar. Mas é preciso entender que Dudu compete na função que o Brasil mais exporta talentos: o velocista e/ou driblador pelo lado que vai abrir a defesa adversária. Neymar, Willian, Douglas Costa, Vinícius Júnior, David Neres, Malcom…

Richarlison também dribla, mas atende a uma demanda específica desta seleção brasileira: a profundidade. Atacar espaços às costas da defesa adversária e partir para o gol. Necessário se considerarmos as características de Firmino e Neymar, hoje as grandes referências ofensivas, de buscar a bola para ajudar na articulação das jogadas. Alguém precisa infiltrar.

Difícil encontrar um espaço para Dudu. Não pode ser uma política de cotas, como alguns defendem. Só porque o jogador do Palmeiras resolveu ficar tem que ser chamado para fomentar o futebol jogado no país. Não é assim que funciona. Ainda mais se considerarmos o período de maior instabilidade de Tite no cargo de técnico da seleção. Por mais que se negue publicamente, o futuro pensando em Copa de 2022 está condicionado ao resultado da Copa América disputada em casa.

Mas o mais curioso de toda esta discussão sobre a não convocação de jogadores atuando no Brasil é a gritaria contra quando eles são chamados porque vão desfalcar seus times no país que não respeita datas FIFA. Se despreza está boicotando, se chama é porque quer prejudicar.

No caso de Dudu, não dá para descartar a hipótese de Tite, na hora de decidir quais serão os pontas convocados, pesar um pouco, ainda que instintivamente, a sua imagem atrelada ao Corinthians no imaginário popular e também a relação conflituosa com Felipão. "Se eu chamo o Dudu vão achar que estou querendo atrapalhar o time rival e o treinador desafeto". Quando convocou Dedé, Paquetá e Fagner e não Bruno Henrique, com Cruzeiro, Flamengo, Corinthians e Palmeiras envolvidos nas semifinais da Copa do Brasil, será que isso não contou? É humano e até compreensível.

Antes de debater convocações de jogadores atuando aqui é preciso discutir o calendário. Não adianta defender ou aceitar estadual inchado atropelando datas em que o universo dos clubes pára para as seleções jogarem, pedir um ou dois na seleção para no final lamentar os desfalques nos clubes em caso de resultado ruim. Ou protestar contra o hábito, de fato absurdo, de enfiar um jogador no avião para entrar em campo 24 horas depois de atuar por seu país.

No fim das contas, vale a pergunta: o palmeirense quer mesmo Dudu convocado e desfalcando a equipe? O Felipão quer? O presidente Galiotte? A Leila da Crefisa?

Vale a pena colocar na lista e oferecer poucas chances porque no fundo não se conta com ele? Se chamar e ele for bem contra um Panamá da vida entrando no segundo tempo não pode criar uma pressão desnecessária e a expectativa que não vai se confirmar lá na frente? Queiram ou não, o futebol jogado aqui não é parâmetro para o mais alto nível. Ou só para garotos surgindo com enorme potencial e que logo vão para os grandes centros.

Dudu é o típico talento brasileiro. Precisa de carinho e de um time para chamar de seu. Com Cuca e Felipão desequilibrou, com Roger Machado e Eduardo Baptista dentro de uma concepção de jogo mais coletivo nem tanto. Na Europa bateu e voltou. Ou seja, rende dentro de um contexto específico. Assim como Luan no Grêmio, outro que Tite não se sentiu seguro para convocar. Não é defesa do treinador da seleção, apenas entender os critérios.

O grande destaque do Palmeiras não vai vestir a camisa verde e amarela. Um plano frustrado para ele. Ruim para mais alguém?

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.