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Por que celebramos o Ajax, mas no Brasil queremos ganhar de qualquer jeito?

André Rocha

17/04/2019 06h19

Foto: Ajax/Divulgação

A virada do Ajax sobre a Juventus em Turim com a classificação do time holandês para as semifinais da Liga dos Campeões foi muito celebrada no Brasil.

Pelos saudosistas dos tempos em que o tetracampeão europeu tinha mais relevância e por aqueles que costumam torcer pelo mais fraco no cenário atual. Obviamente que os fãs de Messi e do Barcelona também vibraram com a eliminação de Cristiano Ronaldo nas quartas de final.

Mas ver um time com orçamento mais modesto encarando um dos favoritos e dominante em seu país, com o octacampeonato da Série A italiana apenas dependendo da matemática, é sempre empolgante. Ainda mais com jovens promissores como o zagueiro De Ligt, autor do gol da vitória, liderados por um Tadic em fase mágica impondo a maneira de jogar e acuando fora de casa o rival mais poderoso.

Quem conhece a história do Ajax exalta a identidade de futebol, associada à figura de Johan Cruyff, o grande mentor do estilo do Barcelona. De proposta ofensiva, cobrando coragem desde que o garoto chega ao clube, como relata Jordi Cruyff, filho de Johan, em texto para o El País. Sem espaço para a covardia.

A observação de todo esse movimento de ideias leva a uma inevitável reflexão: por que nos empolgamos com a marca registrada do futebol de uma equipe independentemente da fase e dos recursos disponíveis e quando se trata do nosso time do coração a proposta de jogo é o que menos importa, só vale se conseguir o resultado?

A história do esporte no Brasil mostra que estilos marcantes só tiveram tempo de consolidação quando sustentados por vitórias e títulos já no curto prazo. Seja a vocação ofensiva do Santos de Pelé passando por todas as versões dos "Meninos da Vila", a elegância do futebol da Academia do Palmeiras, a combinação de força e técnica simbolizada por Falcão no Internacional dominante dos anos 1970, o toque de bola do Flamengo de Zico ou a versão mais competitiva do "jogo bonito" construído por Telê Santana no São Paulo bicampeão da Libertadores e Mundial.

O Grêmio de Renato Gaúcho é o melhor exemplo atual. Desenvolveu uma identidade com Roger Machado e encontrou sua melhor versão no título da Libertadores há dois anos, com o toque em campo e no vestiário do treinador mais experiente. Mas ninguém pode garantir que a trajetória não teria uma interrupção caso o time gaúcho não tivesse conquistado a Copa do Brasil de 2016, quando Renato só tinha três meses de contrato por conta da eleição para presidente no clube.

O Corinthians que passou por Mano Menezes, Tite e agora tem Carille, que foi auxiliar dos dois, também ostenta uma identidade de jogo. Pavimentada desde a disputa da Série B em 2008 e mantida mesmo quando Tite passou pela tormenta da eliminação para o Tolima em 2011.  Porque ganhou Copa do Brasil em 2009 e depois venceu tudo que sonhava. Títulos que garantiram os retornos dos três treinadores em um ciclo com poucos hiatos.

Sem vitórias os clubes entram no ciclo da tentativa e erro. Chega a ser tragicômico quando há a demissão de um técnico e o sucessor trabalha dentro de uma ideia de futebol diametralmente diferente. Porque venceu em outro lugar. Outro contexto, com elenco de características opostas muitas vezes. Não há critério, o que importa é vencer.

Daí vem a justificativa de que o nível do futebol brasileiro é baixo, não podemos competir economicamente por conta da moeda mais fraca, nossos craques partem para a Europa cada vez mais cedo, etc. De fato, o Ajax veio em 2017 e levou David Neres, então no São Paulo com apenas 19 anos, por 15 milhões de euros. Uma aposta que custou o mesmo que a transferência de Arrascaeta do Cruzeiro para o Flamengo, maior contratação da história do futebol brasileiro.

Mas é possível fazer mais com o que temos aqui. Jorge Sampaoli conseguiu resposta rápida no Santos, Fernando Diniz fez o Fluminense encarar o milionário Flamengo em quatro clássicos equilibrados e Tiago Nunes faz o Athletico vencer a Sul-Americana e atropelar o Boca Juniors. A pergunta incômoda é: por que nos clubes com melhores condições financeiras impera o pragmatismo em busca apenas do resultado?

A pressão de torcida, dirigentes e imprensa precisa mesmo criar um ambiente quase esquizofrênico, sem margem para um pouco de idealismo ou ao menos de um trabalho paciente para a construção de uma identidade que possa render frutos mais à frente?

É difícil entender a loucura de tentar controlar algo tão imprevisível e fruto do caos inerente ao jogo como o resultado de uma partida ou a classificação final de um campeonato. Por isso a falta de prazer ao assistir a algo que deveria ser um entretenimento. O torcedor se vangloria de sofrer, surtar, xingar. Uma estranha catarse nos estádios, colocando pra fora todas as amarguras do cotidiano. E quando a vitória chega há muito mais alívio do que alegria.

O sorriso franco e mais sereno só aparece em feitos como o do Ajax. Quando o amor ao jogo fica acima da paixão cega pelo clube. Quando se entende que vencer com fé na ideia é melhor do que ganhar sem nenhuma certeza, quase ao acaso. Voltemos à nossa realidade depois do sonho europeu, mas vale a reflexão sobre o que estamos fazendo com o carinho que temos pelo esporte bretão.

Vale a pena ganhar de qualquer jeito? O que fica depois da taça na sala de troféus? Só zoar o rival nas ruas e nas redes basta? Não tenhamos dúvidas de que para os holandeses o triunfo na Itália foi muito mais do que mandar Cristiano Ronaldo para casa. Bem maior do que os 2 a 1 no placar final.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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