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Eduardo Barroca, exclusivo: "Protagonismo no jogo não é só posse de bola"

André Rocha

2024-04-20T19:00:53

24/04/2019 00h53

Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo

No final de 2017, a vez no Botafogo para assumir o comando técnico do futebol profissional depois da saída de Jair Ventura parecia ser de Eduardo Barroca, pelos bons resultados e estilo personalíssimo treinando o sub-20. A diretoria preferiu Felipe Conceição, o "Tigrão", bem sucedido também, mas no sub-17. Foi anunciado em dezembro e caiu em fevereiro.

Barroca foi para o sub-20 do Corinthians em abril e, um ano depois, volta ao Botafogo sucedendo Zé Ricardo no cargo que desejava e fez por merecer com desempenho e resultados. Com consciência da responsabilidade, mas com metas ambiciosas. Em entrevista exclusiva ao blog a três dias de abrir o Brasileirão contra o São Paulo no Morumbi, o técnico relata suas primeiras impressões em sete dias de trabalho e explica sua visão de futebol, fugindo dos rótulos e das mistificações.

BLOG – Que Botafogo você reencontrou, mas agora nos profissionais e com jogadores trabalhados por você nas divisões de base?

EDUARDO BARROCA – Estou muito feliz com a oportunidade e considero o Botafogo o clube ideal para viver essa experiência que vinha buscando. Encontrei um grupo interessado e inconformado com o que viveu até agora na temporada. Eu não estava aqui, então só posso falar do que estou vendo e é consenso que os resultados não são condizentes com o bom nível do grupo. A convivência tem sido ótima, com a base, que considero a "locomotiva" do clube, e também os que estão aqui há mais tempo, como Gatito Fernández, Joel Carli, Rodrigo Pimpão, João Paulo…

BLOG – Nas entrevistas desde que assumiu o time você vem falando em protagonismo e coragem. Como trabalhar a autoestima de um grupo com resultados muito aquém do que se planejava?

EDUARDO BARROCA – Esses jogadores passaram por vários processos seletivos na vida para chegarem a um clube de Série A. Eles estão no topo da pirâmide do futebol jogado no Brasil e gostam de protagonismo. Eles vêm reagindo bem, a receptividade aos trabalhos tem sido a melhor possível. Nós teremos jogos difíceis e vamos buscar um crescimento rápido no rendimento para que as vitórias venham como consequência.

BLOG – Essa ideia de protagonismo que normalmente se traduz em campo com linhas adiantadas, posse de bola e coragem para atacar não pode encontrar resistências no elenco? Por exemplo, o Joel Carli não é exatamente um zagueiro rápido para jogar com muito campo às suas costas. Ele não pode se sentir desprotegido?

EDUARDO BARROCA – Até aqui não encontrei nenhuma resistência e peço licença para discordar da sua observação sobre o Carli. Velocidade de um zagueiro depende de muitas variáveis, como posicionamento, antevisão do movimento de corpo do atacante e outras. Eu estou no sétimo dia de trabalho e nenhum jogador deixou um treinamento por causa da intensidade ou tive que diminuir o tempo de alguma atividade.

BLOG – Você no momento tem na lateral direita o Marcinho, que já foi elogiado até pelo Tite, mas costuma ser alvo da ira da torcida nos momentos ruins, e Fernando, revelado no clube que acabou de chegar do futebol francês e é uma incógnita. A ideia é seguir com eles ou buscar mais um para a posição no mercado?

EDUARDO BARROCA – A nossa administração é de dentro para fora. Conheço os dois atletas e estou trabalhando com estímulos, confiança e as devidas correções, tanto individual quanto coletivamente. O ciclo é de intensidade, cobrança e ajuste. Isonomia no treinamento e trabalhar internamente para, se for o caso, olhar para fora, para o mercado.

BLOG – Por conta da dificuldade de utilizar o Diego Souza na estreia no Brasileiro contra o São Paulo – o clube teria que pagar uma multa de 400 mil reais para utilizar o jogador emprestado pelo tricolor – você tem trabalhado com o Erik na frente e ainda tem o garoto Igor Cássio como opção depois da saída do Kieza para o Fortaleza. A ideia é ter uma referência no centro do ataque ou uma formação mais móvel?

EDUARDO BARROCA – Antes gostaria de desmistificar essa questão dos "garotos" do Botafogo. O Igor Cássio tem 21 anos e mais de 150 jogos com a camisa do clube. Não é mais um garoto. Tem atleta de 23 anos aqui que já é pai de família. São homens. Sobre a questão em si ainda não tenho uma resposta, não trabalhei com o Diego Souza por causa dessa impossibilidade de escalá-lo. Os treinos e jogos vão definir. Posso usar o Erik por dentro ou por fora. É preciso cuidado porque goleiro e centroavante são funções especiais. Se for preciso a gente vai olhar o mercado também, dentro das possibilidades financeiras do clube.

BLOG – Você tem treinado a equipe num 4-1-4-1. Já tem uma formação na cabeça?

EDUARDO BARROCA – Sim, mas até quarta-feira eu vou trabalhar todos com isonomia. Só a partir de quinta eu vou definir o que quero para o jogo contra o São Paulo. Eu tenho treinado comportamentos com os 25 jogadores de linha e mais os três goleiros. Conto com todos.

BLOG – Inclusive com o Léo Valencia, ainda com futuro indefinido?

EDUARDO BARROCA – Claro, se ficar certamente será muito útil à equipe.

BLOG – Em todas as sessões de treinamentos você trabalha finalizações com todos os jogadores de linha. É uma preocupação de fazer o time protagonista ser eficiente nas conclusões e sofrer menos contra defesas bem fechadas?

EDUARDO BARROCA – Há quatro formas no futebol de fazer gols: bola parada, cruzamento, chute de fora da área e infiltração atacando a última linha de defesa do adversário. Então eu tento neste período em que estamos com tempo trabalhar ao menos uma dessas maneiras para criar um repertório amplo e refinado.

Sobre essa questão do protagonismo no jogo eu gostaria de desmistificar algumas ideias que surgem em função do meu passado na base. Não é só posse de bola. Eu posso ter protagonismo pela superioridade no número de finalizações. Eu posso controlar o jogo no campo do adversário pressionando a marcação, mesmo sem a bola. É circunstancial, depende do contexto. Eu estou me adaptando à realidade do Botafogo.

BLOG – As principais equipes do país, com exceção do Grêmio, se sentem mais confortáveis reagindo ao adversário, com menos posse de bola e um jogo mais direto. Como fugir das "armadilhas" de Felipão, Mano, Carille, Abel e Cuca no Brasileiro tendo um elenco com orçamento mais modesto e a vontade de propor o jogo?

EDUARDO BARROCA – Acho que estão criando expectativas erradas em cima do meu trabalho (risos). Me considero inteligente o suficiente para entender que o time precisa de bons resultados no curto prazo. É claro que o cenário ideal é jogar muito bem e vencer. Mas estou trabalhando os jogadores para encontrar soluções para os problemas que os jogos apresentarem.

BLOG – Misturar idealismo e pragmatismo?

EDUARDO BARROCA – Tudo que eu falar antes do time entrar em campo será pouco profundo. O que é idealismo e pragmatismo no futebol? Eu posso ser dominado, por exemplo, pelo São Paulo do Cuca mesmo com 80% de posse de bola. Ou dominar o Palmeiras do Felipão com pressão e velocidade na transição. E o problema pode nem ser o adversário, mas algo que a equipe esteja executando errado ou eu que tenha me equivocado no plano de jogo.

BLOG – O que tem chamado sua atenção no futebol jogado no Brasil e no mundo?

EDUARDO BARROCA – Estou encantado com o sub-20 do São Paulo. O trabalho na base me proporcionou participar de grandes jogos como, por exemplo, a semifinal da Copinha deste ano contra o Vasco. No profissional fui a São Paulo ver a final do Paulista e achei o jogo bom. Aprecio muito o Grêmio do Renato Gaúcho também, principalmente a maneira com que ele escolhe seus jogadores pelo que podem produzir tecnicamente. Lá fora gosto de City, Liverpool, Tottenham, Barcelona, as equipes do Maurizio Sarri…Me identifico com quem procura colocar os melhor em campo e encontrar soluções para que eles produzam um futebol de alto nível.

BLOG – Para terminar, como o Botafogo vai administrar o calendário com Brasileiro e Sul-Americana e qual é a meta hoje pensando no fim do ano?

EDUARDO BARROCA – A ideia é começar da melhor forma possível para ganhar pontos e confiança. Até a pausa para a Copa América teremos seis partidas no Rio de Janeiro das nove que vamos disputar. Três das quatro primeiras (Bahia e Fortaleza no Estádio Nilton Santos e Fluminense no Maracanã). Queremos render o máximo possível e depois adequar os objetivos conforme a evolução da equipe. Obviamente dividindo atenções com a Sul-Americana, que só entra na segunda fase em maio. A meta do Botafogo hoje é largar bem no Brasileiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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