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Por que Tite não resgata o futebol das Eliminatórias?

André Rocha

01/07/2019 06h32

Foto: Thomás Santos/Mowa Press

A queda de produção na Copa do Mundo na Rússia e a sequência de trabalho pouco consistente de Tite na seleção brasileira provocam com relativa frequência um questionamento: por que o Brasil não consegue resgatar o futebol das Eliminatórias, quando partiu da sexta colocação para a liderança absoluta e a vaga antecipada no Mundial?

A resposta é simples, mas considerando a complexidade do futebol: não há como reproduzir aquele modelo de jogo dentro do que treinador e jogadores já viveram desde meados de 2016. O tempo passou, novas necessidades surgiram. Alguns atletas caíram de produção e saíram do radar, outros precisam entrar por conta da necessária renovação.

O 4-1-4-1 inicial tinha Neymar como atacante no Barcelona, partindo para o drible, buscando as infiltrações em diagonal e fazendo parceria desequilibrante com Marcelo pela esquerda. Philippe Coutinho era o ponta articulador partindo da direita, com Gabriel Jesus entrando nas costas da defesa adversária e Paulinho pisando na área. Renato Augusto era o contraponto de raciocínio no meio, ajudando na saída de bola e compensando os problemas de Casemiro no início da construção dos ataques.

Inspirado no Corinthians campeão brasileiro de 2015, depois do ano "sabático" de Tite viajando, estudando e se espelhando no Real Madrid de Carlo Ancelotti que conquistou "La Décima". Adicionando criatividade e conceitos atuais nas ações ofensivas, especialmente as triangulações, e mantendo a organização defensiva com marcação por zona.

O 4-1-4-1 das Eliminatórias, com Philippe Coutinho saindo da direita como ponta articulador para circular às costas dos volantes adversários, Gabriel Jesus abrindo espaços, Paulinho infiltrando, Renato Augusto organizando e liberando Marcelo e Neymar mais atacante, buscando as diagonais (Tactical Pad).

Características bem casadas, encaixe rápido e confiança pelas nove vitórias consecutivas. O ponto de corte foi o empate sem gols com a Inglaterra repleta de reservas em Wembley no final de 2017. Porque Renato Augusto estava em queda técnica e física e Neymar, já no PSG, mudou a maneira de jogar, buscando a bola e mais conduzindo e afunilando que atacando espaços. O Brasil tentou um jogo mais intuitivo, conduzindo e driblando, e bateu no muro inglês com cinco na defesa.

Com o sorteio colocando Suíça, Costa Rica e Sérvia no caminho do Brasil na fase de grupos da Copa e a possibilidade de encarar pelo menos duas retrancas com linha de cinco atrás, o que acabou não se confirmando pelas circunstâncias, Tite percebeu a necessidade de acrescentar soluções ao repertório ofensivo. Se não o jogo de posição, ou localização, que se popularizou com Pep Guardiola, ao menos elementos de um ataque posicional.

Nas viagens para monitorar os atletas, viu o Manchester City e também o Napoli de Sarri. Trabalhando amplitude, profundidade, apoio, busca do homem livre. Mais a rápida pressão depois da perda da bola. Era uma necessidade urgente se organizar para atacar e criar espaços nas retrancas com linhas de handebol. Ideias novas. A pouco mais de seis meses da Copa, Tite precisava trocar o pneu do carro da seleção e o seu também, com ambos em movimento.

O resultado prático foi um 2-3-5 na fase ofensiva com Daniel Alves e Marcelo apoiando mais por dentro, Willian herdando a vaga do então lesionado Renato Augusto, mas aberto pela direita, trazendo Coutinho para o centro da linha de meio-campistas com Paulinho. E Neymar recebendo a bola na ponta, mas com liberdade de movimentação.

O desempenho não foi o mesmo na Rússia, apesar do bom segundo tempo na eliminação para a Bélgica. Não por acaso com Renato Augusto em campo – autor do gol único, porém desperdiçando chance cristalina à frente de Courtois entre as muitas finalizações brasileiros.

O novo ciclo exige renovação, que  parte da presença de Arthur no meio-campo. Titular do Barcelona e, em tese, a peça que daria um norte à maneira de jogar baseada em posse de bola e trabalho de criar espaços no campo de ataque. Ditando o ritmo e qualificando o passe em todas as etapas de construção. Porque apesar dos 17 anos sem títulos mundiais, a camisa verde e amarela ainda é respeitada e poucos adversários saem de peito aberto para encarar.

Ainda não deu liga, também porque Arthur dá opção e faz a bola girar, mas cria e finaliza pouco no último terço. E Casemiro segue com seu paradoxo: é pilar defensivo, porém contribui pouco com a bola. Mas é a escolha de Tite dentro do contexto, pensando em um projeto a longo prazo, no ciclo completo até o Catar.

Questionável pelo que não jogou até agora, com o time estático, confundindo organização com previsibilidade. Encontrando dificuldades para a leitura dos espaços deixados pela movimentação de Firmino no centro do ataque. Mas é um caminho que pode entregar resultados ainda na Copa América, em caso de título. E desempenho mais tarde, ajustando a proposta às características dos jogadores. Também contando com a sorte de reunir atletas em melhores momentos – a queda de Coutinho foi brusca, Marcelo virou reserva no Real Madrid e a nova lesão de Neymar um problema grave.

Mas há avanços. Por incrível que pareça, no "abafa" final contra o Paraguai com dez homens, a melhor alternativa para atacar era a mais posicional: Willian bem aberto pela direita, dando amplitude aos ataques, mas também fechando em diagonal para finalizar na trave. A ponto de Tite abrir mão de Daniel Alves e colocar Paquetá para se juntar a Coutinho, Gabriel Jesus e Firmino por dentro.

Nos dois cenários, a melhor solução continua a mesma. Aliás, desde a equipe de Luiz Felipe Scolari em 2013 na Copa das Confederações ou mesmo antes, nos tempos de Dunga e Mano Menezes: com jogadores acostumados a ter espaços para acelerar, o gol no início das partidas descomplica tudo abrindo o campo rival. Por isso a necessidade da pressão nos primeiros minutos e jogadas de bola parada bem ensaiadas. Os 5 a 0 no Peru escancararam esta necessidade.

O que passou não volta mais. O "arrasa-quarteirão" de 2016/17 faz parte da história. Agora é virar a página e escrever outras. A mais importante até aqui, neste segundo ciclo de Tite, será na terça, contra a Argentina no Mineirão.

A seleção na Copa América, com laterais construtores, Arthur organizando, pontas abertos, Firmino abrindo espaços e Casemiro fundamental defensivamente, mas contribuindo pouco na construção das jogadas. O pecado até aqui é a previsibilidade (Tactical Pad).

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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