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Ninguém morreu, Felipão. Mas algo muito grave aconteceu em Porto Alegre

André Rocha

19/07/2019 08h06

Luiz Felipe Scolari é uma raposa do futebol brasileiro. Parte do sucesso do treinador por aqui, em clubes e seleção (7 a 1 à parte), é por entender os processos em vitórias e derrotas e saber manipular palavras e silêncios no trato com dirigentes, torcida e imprensa.

Ao dizer que "ninguém morreu" sobre a eliminação na Copa do Brasil na coletiva pós-jogo, a clara intenção era tirar o peso de um revés duro. E inesperado, mesmo respeitando a força do Internacional no Beira-Rio. Afinal, uma vantagem, ainda que mínima, foi construída no Allianz Parque e a invencibilidade de 12 jogos em todas as competições até então, sem contar a bem mais longa no Brasileiro, criava uma quase certeza de voltar para casa vivo. Nas semifinais.

Mas algo muito grave aconteceu. O Palmeiras escolheu a estratégia de se entrincheirar para garantir o resultado. Mesmo com um elenco mais forte e confiante. Se acovardou. É claro que há o mérito dos colorados, jogando com intensidade e buscando os gols durante todo o jogo. Abrindo o placar com Patrick  e mantendo a postura ofensiva. Com 58% de posse, finalizando 12 vezes contra nove e acertando 26 desarmes, dez a mais que o adversário.

Até conseguiu o segundo gol, que poderia ter sido o da classificação nos 90 minutos, de Víctor Cuesta ganhando disputa com Felipe Melo. Anulado em lance para lá de discutível, como foi o do pênalti sobre o volante palmeirense. Mesmo com o auxílio do vídeo, talvez a mania do árbitro brasileiro de tentar compensar, contemporizar e não se comprometer, mas sempre se complicando, tenha pesado.

Na decisão por pênaltis, vitória do time gaúcho já nas cobranças alternadas e o gigante Palmeiras eliminado. Precocemente dentro do planejamento do clube. É aí que entra o discurso de Felipão.

Vivemos a era da pós-verdade. Mas desde sempre a versão sempre foi mais importante que os fatos e a História está aí para provar. O que é mais conveniente para os poderosos é vendido como realidade. Neste caso, o treinador palmeirense tem o poder. Ou a moral de uma carreira vitoriosa, do título brasileiro de 2018 e da liderança nesta edição da competição por pontos corridos.

Mas que, definitivamente, não é a prioridade na temporada. Nem no ano passado, nem agora. Tanto que para encarar um clássico importante contra o São Paulo, que eliminou nos pênaltis o Palmeiras na semifinal do Paulista, Felipão não hesitou em poupar seus zagueiros e volantes. Mais Lucas Lima, que foi titular em Porto Alegre e ficou de fora no Morumbi. Cinco mudanças. Meio time. É claro que o mata-mata nacional foi tratado como mais relevante, até pela premiação gorda que se pode conquistar com menos jogos. Tiro curto.

Mas nunca é admitido publicamente. Porque em 2018 se criou um eufemismo: time do Brasileiro, time do mata-mata. Obviamente para valorizar o elenco, manter todos ligados e alertas, prontos para a necessidade da equipe. Mas havia uma preferência. Quem descansa cinco titulares sabe que está arriscando pontos, como o líder do Brasileiro deixou dois no estádio do São Paulo e viu Santos, Flamengo e Atlético-MG se aproximarem.

No ano passado, o "vácuo" do Flamengo inconstante e do Internacional ainda com a autoestima baixa por estar voltando do inferno da Série B abriu espaço para o crescimento do mistão do Palmeiras, que entrava em campo tranquilo, sem maiores responsabilidades, e foi somando pontos até chegar à liderança. Com as eliminações na Copa do Brasil e na Libertadores, a prioridade total com boa vantagem na tabela para administrar até assegurar a conquista.

Campeonato Brasileiro nunca será prêmio de consolação. Mas foi quase isso para o Palmeiras. E pela repetição da estratégia pode ser novamente. Se acontecer é claro que será comemorado, mas deve ser contextualizado também. A eliminação no Beira-Rio não é um detalhe na temporada. A segunda competição na lista de prioridades, só atrás da Libertadores, foi para o espaço. Quarto fracasso seguido do técnico em mata-mata, se incluirmos o estadual.

Não é pouco e cria, sim, pressão sobre o time milionário. Por mais que o matreiro Scolari queira disfarçar e, blindando seus comandados, se proteja também. Mas é preciso cuidado. No Brasil, sem resultados nem a esperteza sobrevive.

(Estatísticas: Footstats)

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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