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Defesa adiantada x pontas recuados: futebol é cobertor curto desde sempre

André Rocha

22/07/2019 08h00

Foto: Vitor Silva/ Divulgação Botafogo

Este blogueiro teve uma queda dos sinal da TV por assinatura e internet, inclusive pacote de dados do celular, simultaneamente durante o jogo Botafogo x Santos no domingo pela manhã por cerca de meia hora. Era preciso seguir acompanhando o jogo realizado no Estádio Nilton Santos e só restou o bom e velho rádio.

Na Super Rádio Tupi do Rio de Janeiro, o comentarista Gerson – ele mesmo, o "Canhotinha de Ouro" campeão mundial em 1970 – reclamava do recuo excessivo dos pontas Erik e Luiz Fernando no time comandado por Eduardo Barroca. Meio-campista acostumado a lançar ponteiros velozes nos anos 1960, não se conformava de ver os jogadores pelos flancos deixando de ser os escapes do time que era empurrado para trás naquele momento pela equipe de Jorge Sampaoli.

De fato, vem sendo uma dificuldade. Não só do Botafogo. Times recuam e aproximam as linhas, usam até o centroavante no próprio campo para proteger a área e quando recuperam a bola, diante da pressão pós-perda do adversário, acabam apelando ao chutão que muitas vezes não encontra sequer o atacante mais avançado já na intermediária ofensiva.

A solução não é fácil. É uma escolha. O futebol está mais intenso e rápido, inclusive na circulação da bola. Deixar o ponta mais adiantado é risco de uma inversão de bola encontrar dois adversários contra o seu lateral, porque nem sempre vai dar tempo de um meio-campista se deslocar para ajudar – a sugestão de Gerson no comentário, com o Botafogo se organizando numa espécie de 4-3-1-2 com o recuo de Diego Souza e os ponteiros mais adiantados.

Mas o dilema não é novo. No Flamengo campeão brasileiro de 1992, os pontas Paulo Nunes e Nélio marcavam individualmente os laterais adversários. Função desgastante na era do 4-2-2-2 em que os laterais jogavam de uma linha de fundo a outra. Mas era outra época, com jogo menos rápido que dava tempo para o jogador recuar apenas quando a bola era invertida para o ala. Ainda assim, quase em todos os jogos a dupla de jovens formados na base do clube como atacantes era substituída por esgotamento físico.

No Corinthians de Carlos Alberto Parreira em 2002, a ordem para Deivid e Gil era que voltassem só até a intermediária, depois o problema ficava com os laterais com suporte dos meio-campistas e cobertura dos zagueiros. Deu certo durante a temporada vitoriosa com conquistas de Rio-São Paulo e Copa do Brasil, nem tanto quando Rogério se viu sozinho contra as pedaladas de Robinho na final do Brasileiro no Morumbi.

Contra o rival Atlético no Mineirão pela Copa do Brasil, o Cruzeiro de Mano Menezes encontrou a chave para não sobrecarregar Robinho e Marquinhos Gabriel pelos flancos: os contragolpes ficaram por conta de Thiago Neves e, principalmente, de Pedro Rocha, adaptado como atacante mais adiantado na vaga de Fred. A velocidade foi fator de desequilíbrio nos 3 a 0 que encaminharam a vaga da equipe celeste nas semifinais do mata-mata nacional.

Recuar duas linhas de quatro, ou ainda colocar um volante entre elas no 4-1-4-1, e deixar à frente um centroavante lento é pedir para levar sufoco. Porque os adversários têm mais coragem para adiantar as linhas e tentar recuperar a bola assim que perdem, diminuindo o tempo de resposta na transição defesa-ataque. É preciso ter uma referência de velocidade para sair de trás.

Também surpreender a defesa mais exposta. Porque adiantar os jogadores da retaguarda também pode ser muito perigoso. O risco é óbvio: abrir espaços às costas com muito campo para correr. Os times com propostas mais arrojadas se arriscam avançando o goleiro para fazer coberturas. Nem sempre dá certo. Como o Fluminense de Fernando Diniz no Brasileiro ou o Santos de Sampaoli sofreu na Sul-Americana e na Copa do Brasil, competição que viu o Flamengo de Jorge Jesus ser eliminado nos pênaltis pelo Athletico porque sofreu um gol de contragolpe vencendo por 1 a 0. No bote errado de Rafinha na intermediária que deu campo para Rony acelerar e aproveitar o buraco atrás para bater na saída de Diego Alves.

Não há fórmula perfeita. O histórico Barcelona de Guardiola sofreu com a defesa escancarada contra o Chelsea na semifinal da Champions em 2012. O Santos de Pelé e o Botafogo de Garrincha também foram derrotados várias vezes por fragilidades sem a bola porque jogavam no campo de ataque na maior parte do tempo. Assim como o Flamengo de Zico, quando pressionado, muitas vezes não conseguiu fazer a bola chegar a Nunes porque Tita e Lico, meias adaptados como pontas, estavam muito recuados e não conseguiam puxar contragolpes.

O cobertor sempre foi curto. Se cobrir a cabeça, os pés ficam para fora. Faz parte do encanto do futebol. Ensina a ganhar e a perder e que no jogo e na vida não há garantias.  Desde antes dos tempos do Gerson "Canhota", quando o rádio nos fazia imaginar e não ver a partida. Época lúdica, mas de uma disputa não menos imprevisível. Essa é a graça do esporte.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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