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Filipe Luís é ótima contratação, mas não o lateral que o Flamengo precisa

André Rocha

23/07/2019 11h04

Foto: Heino Kalis/Reuters

Depois de um longo processo conduzido por Filipe Luís com coerência na abordagem do mercado e lealdade ao Atlético de Madrid, o lateral esquerdo se acertou com o Flamengo. O clube brasileiro o seduziu aos poucos e, principalmente, ofereceu o desejado contrato de dois anos, até o fim de 2021.

O anúncio oficial saiu nesta manhã e o jogador já é esperado para iniciar os treinamentos. Assim como Pablo Marí e Gerson, além do centroavante solicitado pelo treinador Jorge Jesus, Filipe Luís é mais um jogador que o Flamengo traz no segundo semestre, sem participar da intertemporada na pausa para a Copa América e que entra meio à forceps no time para ganhar entrosamento durante a disputa de jogos importantes.

Jesus foi eliminado da Copa do Brasil em sua terceira partida oficial. Rafinha errou no bote sobre Rony no gol do empate do Athletico que levou a disputa pelas quartas do mata-mata nacional em seu segundo jogo. Gerson estreou domingo, contra o Corinthians. A rigor, Filipe Luís pode nem atuar pela Libertadores, caso os rubro-negros não passem pelo Emelec. Planejamento bastante questionável, mas o possível na busca de jogadores atuando na Europa.

De qualquer forma, a contratação é ótima, mesmo aos 33 anos. Jogador inteligente, articulado, com vivência de 14 temporadas no Velho Continente, seis e meia sob o comando de Simeone no Atlético. Acrescenta prestígio por ser titular da seleção brasileira, impõe respeito aos adversários e é um "upgrade" em relação a Renê, laterais com características muito semelhantes, especialmente na responsabilidade defensiva.

Mas aí está o paradoxo: o Flamengo precisava qualificar o setor esquerdo depois da chegada de Rafinha para resolver o problema pela direita e Filipe Luís era o melhor nome disponível e viável no mercado. Só que não é exatamente o jogador que a equipe precisa.

O Fla é time de posse de bola, que busca o protagonismo nos jogos. Se instala no campo de ataque e trabalha para criar espaços e furar as linhas defensivas dos adversários. Filipe Luís tem força no apoio, por dentro ou abrindo o campo, mas não é o lateral que ataca espaço e chega rápido ao fundo, surpreendendo a marcação. É mais um que progride tocando.

Vale lembrar o segundo gol sobre o Goiás, que pavimentou o caminho para os 6 a 1 no Maracanã: De Arrascaeta achou um belo passe entre as pernas do defensor para Trauco, em um raro momento de intensidade e rapidez chegando ao fundo. Assistência do lateral e gol de Bruno Henrique em lance confuso. O toque genial do uruguaio clareou tudo, mas sem o peruano se projetando talvez a jogada não se concretizasse.

O ideal seria que o lateral da profundidade atuasse pela direita, aproveitando o corredor deixado por Everton Ribeiro, o ponta articulador canhoto que corta para dentro e procura os espaços às costas dos volantes do oponente. Foi o que os treinadores anteriores tentaram com Rodinei, mas o que sobra em força e velocidade falta em leitura de jogo e posicionamento defensivo.

Mas à esquerda seria possível adequar um lateral mais intenso à movimentação de Arrascaeta na mesma dinâmica: um procura o centro do campo e outro faz a ultrapassagem rápida. Com Filipe Luís é possível criar boas combinações pela qualidade técnica, mas sem a chegada forte para servir os companheiros na área. Ou o drible que descoordena a marcação.

Segundo o site Whoscored.com, Filipe entregou duas assistências para gol em 27 partidas na última liga espanhola, três saindo do banco de reservas. Tem média inferior a um drible certo e um "key pass" – passe decisivo que cria a chance de gol e viabiliza a finalização- por jogo. Não é acaso que o clube espanhol tenha ido atrás de Renan Lodi.

Fica a dúvida também quanto à resistência do atleta veterano ao contexto brasileiro: temperatura que aumenta a partir de setembro, desgaste pelas viagens longas em país continental, um jogo de mais bate-volta. Cenário ainda mais complexo no ano que vem, incluindo os jogos do estadual.

O Flamengo investe alto em 2019 e torna o elenco mais equilibrado, mas ainda dá a impressão de que contrata olhando mais a "grife" que as necessidades do time, combinando características. Cabe a Jorge Jesus encontrar a maneira de dar o "click" e encaixar as peças na formação de uma equipe forte e, o mais importante, vencedora.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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