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Bruno Guimarães é o melhor projeto de meio-campo completo dos últimos anos

André Rocha

28/07/2019 09h27

Foto: Albari Rosa/Tribuna do Paraná

Quando a seleção brasileira perdeu a Copa de 2010 com Gilberto Silva, Felipe Melo, Elano (Ramires ou Daniel Alves improvisado no jogo da eliminação contra a Holanda) e Kaká no meio-campo e viu Busquets, Xavi e Iniesta terminarem campeões mundiais a constatação era dura: o país que produziu Didi e Gerson não entregava há tempos um meio-campista organizador, de área a área, jogando no mais alto nível.

Consequência da divisão, desde as categorias de base na virada dos anos 1980 para os 1990, do meio-campo entre volantes e meias no 4-2-2-2 tipicamente brasileiro. Normalmente um marcador, quase terceiro zagueiro, outro mais infiltrador se juntando a um meia organizador e o companheiro mais finalizador, no estilo "ponta-de-lança".

Em 1990 e 1994, Dunga cumpriu a função de volante passador. Na Copa seguinte jogou mais plantado e César Sampaio saindo mais para o ataque. Em 2002, Kléberson fez a liga entre Gilberto Silva e o trio desequilibrante Ronaldinho-Rivaldo-Ronaldo. Quatro anos depois, Juninho Pernambucano virou reserva com a efetivação do "quarteto mágico" de Carlos Alberto Parreira e na Alemanha o mundo viu uma seleção desconjuntada com Zé Roberto tentando cobrir os buracos entre as intermediárias. Correndo mais que pensando.

Essa carência só não virou fatalismo em 2014 depois dos 7 a 1, com Toni Kroos desfilando sua classe no Mineirão, porque havia uma esperança que vinha justamente de Belo Horizonte: Lucas Silva, que seria bicampeão brasileiro com o Cruzeiro aos 21 anos. Passes curtos e longos, estilo elegante, visão de jogo e bom chute de fora da área.

Em 2015, porém, o volante teve transferência precoce para o gigante Real Madrid e precisou jogar por conta de uma séria lesão de Luka Modric. Virou "flop" com o empréstimo ao Olympique de Marseille e a volta ao Cruzeiro. Um tanto frustrante, apesar de outro bicampeonato nacional, mas da Copa do Brasil. Agora volta ao Real Madrid e pode ser negociado com um time italiano ou português.

Renato Augusto surgiu como meia no Flamengo. Estreou pelo profissional aos 18 anos como atacante e nesta função viveu seu melhor momento no clube, em 2007 com Joel Santana no comando. Foi para a Europa e recuou como meio-campista. Na volta ao Corinthians foi o organizador e melhor jogador, junto com Jadson, do título brasileiro de 2015. No ano seguinte foi parar na seleção brasileira, também com Tite no comando. Mas a descoberta de um novo posicionamento em campo acabou sendo um tanto tardia e a decisão (legítima) de ganhar dinheiro no futebol chinês em uma reta final de carreira tornaram os efeitos menos duradouros.

Nos últimos tempos, a esperança é Arthur. Depois de um ano mágico no Grêmio com titularidade absoluta e a conquista da Libertadores em 2017 foi parar no Barcelona com o rótulo de sucessor de Xavi Hernández. Meio-campista de passe mais curto, controla o jogo com toques e deslocamentos. Segue com carreira vencedora por conta dos títulos espanhol do time catalão e da Copa América pela seleção, mas ainda há dúvidas quanto à sua intensidade em 90 minutos e a capacidade de entregar passes decisivos e finalizar com mais frequência. Ainda com 22 anos e jogando em um dos grandes centros da Europa tem tudo para se destacar.

Matheus Henrique, seu substituto no Grêmio, parece seguir o mesmo caminho. Com Maicon forma uma dupla de controle e visão de jogo alimentando o quarteto ofensivo do 4-2-3-1 quase imutável de Renato Gaúcho. As características são fundamentais para a preservação do modelo de jogo da equipe gaúcho.

Mas é no Paraná que parece florescer o projeto mais bem acabado de meio-campista completo: Bruno Guimarães, do Athletico. Carioca, surgiu no Audax Rio e foi para Curitiba em 2017, aos 19 anos. Em 2018 virou titular após brilhar na campanha do título paranaense com a equipe sub-23 comandada por Tiago Nunes. Com a efetivação do treinador virou destaque na conquista da Sul-Americana.

Em termos de características é a evolução de Lucas Silva e Arthur, porque inicia bem a construção de jogo buscando a bola com os zagueiros, tem intensidade para jogar de área a área, finaliza de longe como Lucas, mas entra mais na área que os seus antecessores (ou pares). Como na bela jogada trabalhada com toques de primeira que terminou na assistência de Marcelo Cirino e finalização do meio-campista nos 2 a 0 sobre os reservas do Cruzeiro no Mineirão.

Segundo goll no Brasileiro. Também contabiliza um passe para gol e 95,6% de acerto nos passes. Tem média inferior a um desarme por jogo (0,8), mas acerta 2,4 lançamentos por partida e finalizou sete vezes em oito jogos. Apenas duas no alvo. Os números melhoram substancialmente na Libertadores, prioridade do clube na temporada: dois gols, duas assistências, média de quase três desarmes por partida e nove finalizações em seis jogos.

Bruno pode jogar em trio com um volante mais plantado (Wellington) e alinhado a Lucho González num 4-1-4-1 ou atrás de um quarteto bastante ofensivo, como quando Tiago Nunes manda a campo Cirino, Nikão, Rony e Marco Rúben no 4-2-3-1. Das duas formas, o jovem meio-campista consegue render e manter a regularidade. Mesmo quando o trabalho coletivo não vai tão bem, como na derrota para o Boca Juniors na Arena da Baixada que complica a vida do Furacão na Liberadores.

Tite já está de olho e pode surgir com a novidade na lista de convocados do dia 16 de agosto para os amistosos contra Colômbia e Peru em setembro. Athletico e Bruno tentam resistir às propostas, da Europa ou a milionária da China que chegou e foi recusada nos últimos dias. A torcida é sempre para que possamos contar com os talentos por mais tempo em nossos campos, mas a ida ao Velho Continente parece ser inevitável.

Se Bruno Guimarães mantiver o foco na carreira e seguir evoluindo em todos os aspectos do jogo, inclusive o mental, é jogador para três ciclos de Copa do Mundo e trajetória bem sucedida em grandes centros. Para alívio de quem não via luz no fim do túnel em 2014 e agora encontra alternativas para acabar com um dos grandes gargalos do futebol brasileiro nos últimos anos.

(Estatísticas: Footstats)

 

 

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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