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A inacreditável crise de pré-temporada no Real Madrid

André Rocha

13/08/2019 09h45

Foto: EPA

A celebração pelo tricampeonato da Liga dos Campeões depois da vitória por 3 a 1 sobre o Liverpool em Kiev era um misto de alegria pela certeza do feito inédito e histórico do Real Madrid na Era Champions e também uma certa nostalgia pela impressão de fim de ciclo que virou certeza com o anúncio das saídas de Zinedine Zidane e Cristiano Ronaldo.

Imaginava-se que Florentino Pérez, depois de três temporadas sem grandes investimentos a pedido de Zidane, que apostava em manutenção da base vencedora e pinçar jovens revelados pelo clube, sacudiria o mercado com uma pesada reformulação. Chegava o momento de construir outro time merengue repleto de estrelas depois do movimento iniciado em 2009, com as contratações de Cristiano Ronaldo, Benzema e Kaká.

Mas o dirigente cometeu um erro muito comum em clubes vencedores que acreditam ter encontrado uma fórmula para conquistas: a crença no "piloto automático". Basta manter a estrutura que a coisa caminha naturalmente. Até porque não seria fácil simplesmente descartar símbolos como Sergio Ramos e Marcelo, ou jogadores consagrados que não vão deixar o maior time do planeta por qualquer motivo – casos de Varane, Modric, Kroos e Gareth Bale.

Chegou Julen Lopetegui, um equívoco desde a negociação e o anúncio precoce com o treinador da seleção espanhola envolvido com a preparação para a Copa do Mundo na Rússia. Nenhuma grande novidade no mercado além de Courtois para a meta e Odrioloza como opção para a lateral direita, sem contar a chegada de Vinícius Júnior, que só ganhou oportunidades mais sólidas depois da saída do técnico já no final de outubro, após a goleada do Barcelona por 5 a 1, e a efetivação de Santiago Solari.

Durante toda temporada 2018/19, uma sensação de estagnação. Conquista única e protocolar do Mundial de Clubes e, no momento que parecia o mais promissor, depois de vencer o Ajax fora de casa por 2 a 1 na ida das oitavas da Champions, os humilhantes 4 a 1 no Santiago Bernabéu impostos pela equipe holandesa foram o duro choque de realidade. O ano que deveria funcionar como transição foi perdido.

A volta de Zidane parecia uma retomada do caminho, com o francês planejando a reformulação já no final da temporada para ir ao mercado atrás dos alvos certos. Também sinalizar para Bale, com quem sempre teve um relacionamento complicado, que enfim chegava a hora de deixar o clube.

O investimento foi pesado: nada menos que R$ 1,6 bilhão em Eden Hazard, Luka Jovic, Éder Militão, Ferland Mendy e Rodrygo. O belga para herdar o posto de estrela midiática vago depois da saída de Cristiano Ronaldo e novidades na defesa e no ataque.

Só que a base continua a mesma. Envelhecida, um tanto acomodada depois de alcançar o auge. O que ainda é capaz de motivar Varane, Sergio Ramos, Marcelo, Modric e Kroos? Benzema é o único que segue com fome, mas seu papel é de coadjuvante, não de liderança em um processo.

Para complicar, Hazard chegou bem acima do peso. Mesmo respeitando a liberdade nas férias é difícil aceitar que a maior contratação da história do clube – 140 milhões de euros – e um símbolo da transformação de um clube gigante se apresente tão fora de forma. Mais um fato que só reforça a imagem de que o Real Madrid, por si só, é o topo do futebol mundial e, para muitos, os desafios acabam no momento em que se veste a camisa branca do time merengue.

O resultado disso tudo é uma pré-temporada catastrófica. Mesmo relativizando resultados no período em que a equipe entra em campo com pouquíssimos dias de preparação para cumprir compromissos comerciais, não dá para aceitar passivamente levar sete gols do rival Atlético de Madrid. Sete que poderiam ter virado dez, tal a letargia em campo e o problema crônico na transição defensiva.

Mais derrotas para Bayern de Munique (3 a 1) , Tottenham (1 a 0) e Roma – 5 a 4 nos pênaltis depois de 2 a 2 no tempo normal.  Vitórias sobre Fenerbahçe por 5 a 3 e Red Bull Salzburg por 1 a 0, única partida sem sofrer gols. Com Zidane experimentando o sistema com três zagueiros:  Varane, Ramos e Militão dando liberdade aos alas Carvajal e Marcelo e aproximando Hazard de Benzema no ataque. Pode ser uma solução interessante, mas seria necessário buscar mais um zagueiro no mercado, já que além dos três só há Nacho Fernández como opção.

A estreia no campeonato espanhol contra o Celta de Vigo no sábado, dia 17, que deveria estar cercada de expectativas positivas, se transforma em grande ponto de interrogação e também um tormento: o Real Madrid chega ao primeiro jogo oficial de 2019/20 enfiado em uma crise inacreditável. Com Asensio, Brahim Díaz e Mendy lesionados, Bale e James Rodríguez numa espécie de "limbo" e os rumores de Neymar e Pogba no final da janela para tentar transformar a turbulência em esperança. E desviar o foco das notícias que já surgem sobre insatisfação e novos conflitos entre Florentino e o treinador.

Consequências da dimensão exagerada quando o assunto é o time mais vencedor do planeta, mas também de erros seguidos de planejamento e execução em um fim de ciclo que não chegou e agora fica difícil recomeçar com tantas lacunas e assuntos pendentes. Um desafio enorme para Zidane e também para a instituição. É hora da reciclagem à forceps.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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