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Klopp, Rafael Oliveira e a influência do público no jornalismo de futebol

André Rocha

15/08/2019 09h40

"A ESPN vive um processo de transformação e adaptação para atender aos fãs, acionistas e clientes de esportes em meio às constantes mudanças no consumo de conteúdo".

Esta é a parte que chama mais atenção da nota oficial emitida pela ESPN Brasil para justificar a demissão ou não renovação de contrato de João Palomino, Juca Kfouri, João Carlos "Canalha", Arnaldo Ribeiro, Eduardo Tironi, Cláudio Arreguy, Maurício Barros, Renata Netto, Stela Spironelli, Guilherme Graziano e Rafael Oliveira.

Mas foi justamente o nome deste último que gerou mais repercussão. O mais jovem e talvez hierarquicamente o profissional de menor poder decisório de todos os dispensados. Mas um comentarista que se destaca pelo enorme conhecimento de futebol nacional e internacional.

Este blogueiro conheceu o Rafael em 2007, no início do Esporte Interativo, ainda como um canal de transmissão restrita aos clientes com antena parabólica comum. Ele era produtor estagiário, com 18 anos, mas já mostrava um enorme conhecimento. Seu material de pesquisa para os jogos era superior aos dos comentaristas. Não demorou para a chefia notar que ele era melhor que todos nós e colocá-lo para comentar jogos. Não tenho a mínima vergonha de dizer que o Rafael ficou com a minha vaga.

Porque ele é simplesmente o melhor para comentar sobre o futebol na sua essência, o jogo. Respira o esporte mais que qualquer um de nós, a ponto de acompanhar e analisar com profundidade os campeonatos mais alternativos.  Por isso a gritaria nas redes e o seu nome em primeiro lugar nos assuntos mais comentados no Twitter.

Mas a nota da ESPN deixa a mensagem subliminar de que este perfil não se adequa mais ao que o grosso da audiência deseja. E a saída dos outros profissionais indica que acionistas mandaram às favas a linha editorial que sempre marcou a emissora, mas já vinha se transformando.

Com a popularização da TV por assinatura e internet por banda larga, além das entradas do Fox Sports e Esporte Interativo, o perfil do consumidor de conteúdo sobre esportes, particularmente o futebol, mudou. Antes era Sportv com o futebol nacional e alguns campeonatos europeus periféricos e a ESPN Brasil com as principais competições internacionais.

A fragmentação distribuiu os direitos de transmissão e abriu espaços nas grades para os programas de debate. E surpreendentemente a fórmula da TV aberta, tosca e popularesca na maioria das vezes, encontrou um público na fechada e passou a liderar a audiência.

Velhas práticas, como polêmicas bairristas, gritaria e a "indústria da treta" – as brigas entre os participantes, normalmente combinadas antes ou criadas na hora – atraíram a atenção do público e viraram a lógica do avesso. Explica a mutação gradativa das então duas emissoras dominantes e agora temos a ESPN consolidando uma guinada antes improvável.

A outra parte da nota do canal diz: "A reformulação faz parte do planejamento da emissora para o próximo ano que seguirá apostando no conteúdo ao vivo e nos direitos esportivos de futebol, tais como Premier League e La Liga, além das ligas norte-americanas como a NFL, NBA, MLB, NHL entre outras."

Curioso pensar que apostando em transmissões como os campeonatos inglês e espanhol a ESPN dispense um comentarista como o Rafael Oliveira, que domina como poucos (ou ninguém) as duas ligas. A impressão é mesmo que o investimento agora será no caminho mais fácil: polêmicas e análises simplistas.

Até porque a nova executiva que substitui Palomino, Adriana Naves, vem do Fox Sports. Justamente a emissora que resgatou esse formato mais "popular". Considerando que o Fox Sports no Brasil será vendido pela própria Disney com "porteira fechada", incluindo os campeonatos que transmite, o crescimento do DAZN no serviço de streaming e ainda o investimento da Turner no esporte essa estratégia de contratar mais eventos ao vivo não parece muito promissora. A tendência é fragmentar ainda mais.

Faz sentido se notarmos o que repercute em todos esses muitos debates sobre futebol nas emissoras. É bem provável que boa parte dos que lamentaram a saída do Rafael ontem não assistisse com frequência as atrações das quais o comentarista participava. Muito menos faziam eco nas redes sociais de suas análises embasadas.

Já a polêmica barata, a bobagem contundente e o apelo clubista e bairrista costumam "quebrar a internet". Mesmo que gerem ofensas e até ameaças nos casos mais graves, entregam audiência e o tal do engajamento. Atraem patrocinadores que pagam as contas e agradam os acionistas. Ou seja, o "chorume" no rigor dos números vale mais que o conteúdo.

Essa lógica perversa é responsabilidade também do público. Sim, do cliente que nem sempre tem razão. Se quem é fã do Rafael ouve o que ele diz e guarda admiração para si, mas repercute o lixo de outros está apenas mantendo esse status quo que critica. As redes sociais deram voz e poder de participação aos espectadores que precisam refletir sobre o seu papel na construção da mídia e, consequentemente, do nosso futebol que é praticamente o tema único no jornalismo esportivo.

Este conflito não é recente, nem restrito ao Brasil. Vale destacar alguns pequenos trechos do livro "Klopp", de Raphael Honigstein, traduzido pela editora Grande Área, muito bem resgatados pelo colega Gabriel Dudziak no Twitter sobre a realidade do futebol alemão há alguns anos e que gerou por lá reflexões e também mudanças:

"… e mais ainda na maneira como se discutia e se pensava futebol na Alemanha. Vencedores ganhavam porque tinham mais desejo de vitória e perdedores fracassavam… porque é isso que perdedores fazem não é mesmo?"(…) a simplificação deliberada de sua apresentação (do futebol) cobrou um preço muito alto: […] era o futebol 'desfutebolizado', despreocupado com a forma e voltado apenas para o sucesso. Essa desavergonhada falta de qualquer tentativa de análise séria contribuiu para que os clubes e a seleção nacional ficassem completamente para trás ao longo das décadas seguintes. Não havia nem vocabulário nem estrutura técnica para introspecções."

Caminhamos para a não-reflexão. Ainda que se entenda que o espectador tem o direito de simplesmente sentar no sofá e buscar um entretenimento para acompanhar a refeição ou o descanso depois de um dia exaustivo de trabalho não pode ser apenas isso. É possível fazer algo plural, com diversão, mas também informação e análise que não encerre a discussão no "ganhou porque o grupo está fechado com o treinador" ou "perdeu porque faltou raça". Ou explicações mais estapafúrdias. Ou brigas fabricadas.

Jurgen Klopp é um belo exemplo de conteúdo e diversão. Revoluciona o esporte com novos conceitos, mas é capaz de fazer piada com o goleiro Adrián – substituto do brasileiro Alisson e herói da vitória nos pênaltis sobre o Chelsea por 5 a 4, depois do empate por 2 a 2 em Istambul pela Supercopa da Europa. O treinador alemão arrancou gargalhadas até do entrevistador ao imitar Rocky Balboa gritando por sua mulher Adrian em uma cena clássica da série de filmes do personagem de Silvester Stallone. É possível combinar seriedade, profundidade e a leveza do humor.

Respostas complexas ajudam a mudar o jogo. E nosso futebol precisa evoluir dentro e fora de campo. A imprensa tem papel importante, mas o público também. Para que o Rafael Oliveira não vire o assunto mais comentado apenas quando o patrão fizer a loucura de dispensar sua competência.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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