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Sem discutir calendário não há como questionar convocações

André Rocha

21/09/2019 02h01

Foto: divulgação / CBF

As datas FIFA incomodam os grandes clubes da Europa. Como são verdadeiras seleções mundiais, os jogadores partem para servir suas seleções e os treinadores perdem quase dez dias de trabalho. Guardiola, Klopp, Simeone, Conte…todos já reclamaram em algum momento da desmobilização deste período e os dirigentes fazem eco. Não por acaso a Liga das Nações foi criada pela UEFA para minimizar as queixas.

Agora imagine dizer para qualquer um deles que no Brasil o calendário sequer oferece a pausa nas competições para os jogos de seleções. Ou seja, o mínimo. Depois querem que os melhores do mundo venham para cá comprovar a competência…

Não há como debater seriamente quase nenhuma questão do futebol brasileiro sem discutir o calendário. Inchado pelos estaduais para manter uma estrutura federativa arcaica e que pouco contribui para o esporte que deveria ser gerenciado pelos clubes. Mas Copa União e Primeira Liga estão na história para mostrar que é difícil, quase impossível haver parcerias, mesmo em torno de interesses comuns.

Por isso a CBF decide com a Rede Globo o calendário e os clubes obedecem. E se aceitam fica difícil reclamar de qualquer coisa. Mesmo a opção de Tite de convocar dois jogadores do Flamengo (Rodrigo Caio e Gabriel Barbosa) e dois do Grêmio (Matheus Henrique e Everton) para a data FIFA de outubro, em meio a jogos decisivos do Brasileiro. E apenas um dos outros, incluindo o Palmeiras, atual campeão e vice-líder, com o goleiro Weverton. Para enfrentar Senegal e Nigéria em Cingapura. Sem contar as convocações pré-olimpica e sub-17.

É justo o protesto contra o desequilíbrio, ainda mais considerando que o atual líder terá também De Arrascaeta no Uruguai, Berrío na Colômbia e Reinier na sub-17. Cinco perdas.  O clube carioca ficou de se pronunciar depois do jogo contra o Cruzeiro no Mineirão e talvez alguma decisão seja tomada para minimizar os danos. O time gaúcho, priorizando totalmente a Libertadores, pode se aproveitar na carona. Outros também.

Mas só reclamar é o suficiente? Se há um clube capaz de desafiar essa estrutura carcomida é o Fla. Maior torcida do Brasil, saúde financeira, enorme exposição midiática – incluindo engajamento em redes sociais –  e domínio estadual suficiente para encarar a FFERJ. Como organizar um Carioca sem o "trem pagador", ainda mais considerando os problemas financeiros dos rivais locais Vasco, Fluminense e Botafogo? Há margem para sozinho exigir redução do número de jogos e respeito às datas FIFA, levando às últimas consequências e pagando para ver com coragem. Mas há interesse?

A receita de TV do Carioca é boa e agora, depois de um período como oposição da CBF na gestão Bandeira de Mello, houve uma tentativa de reaproximação com o convite para Rodolfo Landim chefiar a delegação brasileira na Copa América. Agora muitos torcedores rubro-negros criam teorias de conspiração sobre um suposto favorecimento aos clubes que apoiaram Rogério Caboclo na eleição – só Flamengo, Corinthians e Athletico não votaram no atual presidente da entidade máxima do futebol nacional. O time paranaense teve o goleiro Santos convocado e o Corinthians nenhum.

É óbvio que Tite poderia ter feito diferente e chamado um de cada clube brasileiro. Ou nenhum, se limitando a convocar jogadores atuando na Europa. Mas coerência tem passado longe do técnico da seleção há algum tempo. Ou desde que aceitou o convite de Marco Polo Del Nero, em 2016.

Por outro lado, ele foi contratado para cuidar do seu trabalho de convocar, treinar e jogar, não minimizar os danos do calendário. Até porque a prioridade da CBF sempre foi a seleção. E quando Tite diz que a Copa do Brasil tem preponderância sobre o Brasileiro pode soar absurdo, mas é uma sinalização dos próprios clubes, que mandam a campo equipes só com reservas na competição por pontos corridos.

Inclusive o Flamengo, nos tempos de Abel Braga. Justamente por considerar os pontos recuperáveis. Os mesmos que estão sendo tão valorizados agora por conta da convocação. Como levar tão a sério? Um olhar ainda mais cético pode até desconfiar que a intenção da gritaria é apenas criar um álibi ou muleta em caso de insucesso no final.

Definitivamente é uma história sem mocinhos, herois ou vítimas. Tipicamente brasileira. Alguém ousaria perguntar a Guardiola se ele encararia?

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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