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Mano retoma "desfile técnico" no Palmeiras. Maratona de jogos pode ajudar

André Rocha

23/09/2019 06h31

Imagem: Reprodução / Palmeiras

Com a profissionalização definitiva do Carnaval carioca nos anos 1990/2000, tanto na produção dos desfiles quanto no trabalho dos jurados, muitas escolas de samba passaram a se preocupar mais com a capacidade competitiva na apuração, se concentrando muito nos detalhes técnico que poderiam tirar pontos, do que na capacidade de emocionar.

Era o "desfile técnico" que premiou a Imperatriz Leopoldinense da carnavalesca Rosa Magalhães, campeã cinco vezes (1994, 1995, 1999, 2000 e 2001). Grande referência deste estilo pragmático por não empolgar muito, quase nunca ser apontada como favorita, mas ao receber notas dez de cada jurado que não encontrava problemas nos quesitos avaliados, acabava vencendo. Mesmo sem marcar história, a não ser pelas conquistas.

O Palmeiras foi campeão brasileiro em 2016 com Cuca, vice em 2017, novamente vencedor no ano passado com Luiz Felipe Scolari e agora, depois da queda brusca que acabou provocando a queda de Felipão, se reposiciona novamente como candidato ao título ao abrir cinco pontos de vantagem sobre o Santos, terceiro colocado, e manter os três pontos de distância do líder Flamengo.

O futebol não é de marcar época, mas pontua mais que a maioria dos concorrentes. Não só pela capacidade de investimento na formação de um elenco forte e homogêneo, mas por uma cultura construída na disputa por pontos corridos. Aditivada por um clima que nunca é desfavorável perante os rivais. Como não é tão elogiado pelo futebol praticado, também não desperta uma vontade extra dos adversários para superá-lo. Fica tudo meio morno.

Em banho maria vai vencendo. Com Mano Menezes e a natural mudança anímica que costuma acontecer na troca de comando técnico, o Palmeiras já emenda quatro vitórias. Só sofrendo um gol do Goiás. Sem ser vazado contra Fluminense, Cruzeiro e Fortaleza. Na capital cearense, o triunfo com um gol meio sem querer de Willian Bigode. Garantido pela solidez defensiva, alguns chutões de Felipe Melo e paciência para administrar o jogo.

Sim, é diferente do estilo Felipão. Fica mais com a bola, a saída da defesa tem mais passes trocados e o time não se retrai tanto quando abre vantagem. A marcação é por zona, com linhas mais posicionadas e menos encaixe e perseguições nos setores. Como previsto, a ideia é a mesma e só muda o método. Pragmatismo e objetividade jogo a jogo. Solidez, concentração, persistência na espera do erro do oponente e precisão para aproveitar as oportunidades. Com bola parada ou rolando.

Receita que pode dar muito certo a partir de agora, com jogos quarta e domingo. Sem tempo para treinar, simplificar processos é mais seguro. Reagir desgasta menos física e mentalmente. Tentar propor o jogo, ter a bola, se instalar no campo de ataque e criar espaços é bem mais desafiador. Também impõe riscos, ainda maiores quando a rotina de viagens e partidas tira a capacidade de exercitar e fazer ajustes nos treinamentos. O nível de excelência cai naturalmente.

Eis a chance do atual campeão tentar ultrapassar o Flamengo que nas sete vitórias consecutivas só teve duas semanas com partidas no meio, contra o Internacional pela Libertadores. Será que resiste à maratona de jogos dentro da proposta de Jorge Jesus que exige intensidade máxima e muita força mental?

O Palmeiras de Mano ainda precisa de um teste contra equipe na primeira página da tabela. Virá no domingo, contra o Internacional no Beira-Rio. Antes, recebe no Pacaembu o CSA resgatado por Argel Fucks a ponto de sair do Z-4. Favoritismo natural, mas no turno o time alagoano foi o primeiro a tirar pontos do alviverde e mostrar que a estratégia de usar time reserva nos pontos corridos não seria tão bem sucedida quanto em 2018.

Mas o que importa é seguir pontuando e acossando o líder em uma corrida mais de resistência do que técnica. Minimizando erros, mesmo que os acertos não encantem as retinas. Depois da tempestade das eliminações no mata-mata e de despencar do topo da tabela no Brasileiro, o Palmeiras retoma o espírito do "desfile técnico" para buscar mais uma taça. Recurso legítimo, com méritos inegáveis. Afinal, o objetivo final é vencer.

Ainda que faça história e fique na memória apenas do torcedor do clube. Sem legado além do resultado final. Foi assim com Cuca e Felipão. Será com Mano Menezes?

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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