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Pior versão da "identidade Corinthians" ainda consegue ser competitiva

André Rocha

04/10/2019 09h04

Foto: Daniel Augusto Jr. / Agência Corinthians

Em 2013, o Corinthians viveu a ressaca do ano mais glorioso de sua história, com os títulos da Libertadores e do Mundial. Tite pecou por um dose exagerada de gratidão ao seu grupo de jogadores e o clube se limitou a vencer o Paulista e a Recopa Sul-Americana sobre o rival São Paulo.

No Brasileiro, apenas a décima colocação de uma campanha preguiçosa, mas que se destacou por terminar com a defesa menos vazada, com larga vantagem – 22 gols sofridos e o Grêmio, segundo no quesito, com 35. Por outro lado, o ataque marcou 27, só acima do lanterna Náutico com 22. Números inusitados para uma equipe vivendo realidade muito particular.

Tite saiu, veio Mano Menezes, o precursor de toda essa saga desde a campanha da volta à Série A em 2008. Depois Tite voltou repaginado e adicionou criatividade e ímpeto ofensivo ao que se convencionou chamar de "identidade Corinthians". Essa capacidade de competir com organização, pragmatismo e resiliência. O "saber sofrer" para ser vitorioso.

Espírito resgatado por Fabio Carille, auxiliar dos dois treinadores "galácticos" e efetivado depois de algumas experiências como interino. Após um hiato de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira em 2016, quando Tite partiu para a seleção brasileira. Um 2017 surpreendente com conquistas do Paulista e do Brasileiro e o bi estadual no ano seguinte antes do treinador partir para uma aventura no Al Wheda, da Arábia Saudita.

O retorno em 2019 para o tri paulista, mas muita dificuldade na montagem da equipe. Também uma concorrência mais forte que há dois anos no cenário nacional. Agora Jorge Jesus e Sampaoli, com Flamengo e Santos, puxaram o nível para cima e o Palmeiras, com sua forte cultura de pontos corridos e a chegada de Mano Menezes, retomou a luta pelo título.

Mas com as vitórias sobre Vasco e Chapecoense por 1 a 0, o Corinthians se desgarra de Internacional, São Paulo e Bahia e consegue encostar no pelotão da frente. Com os mesmos 41 pontos do Santos, a cinco do Palmeiras e oito do Flamengo. Com 16 rodadas pela frente, a frieza dos números aponta chance real de título, ainda mais com o líder envolvido com Libertadores e sofrendo baixas importantes nas próximas rodadas.

Sem o "radicalismo" de 2013, o time novamente tem a defesa menos vazada (13 gol sofridos). O ataque, porém, é o menos efetivo do G-6: 25 gols marcados. Entre os dez primeiros só foi às redes mais vezes que o São Paulo (23). Porque o desempenho oscila demais. Carille alterna as peças na execução do quase imutável 4-1-4-1, o que é importante nesta sequência de dois jogos por semana, mas não consegue encontrar a formação ideal, a grande virtude da campanha vitoriosa dois anos atrás.

A última linha de defesa ganhou qualidade e experiência com o retorno de Gil ao clube, mas o meio-campo não encaixa os melhores parceiros para Ralf, o volante fixo na proteção da retaguarda. Cenário que ficou ainda mais dramático com a queda brusca na produção de Júnior Urso ao voltar de lesão. O treinador vai alternando Ramiro, Matheus Jesus, Sornoza, Mateus Vital, Jadson…Mas objetivamente o jogo não flui.

Pedrinho e Clayson entregam mais movimentação e imprevisibilidade pelas pontas, mesmo com a irregularidade deste último. Com os pés "invertidos", cortando para dentro e buscando as combinações com o centroavante que pode ser Vágner Love, artilheiro do time no Brasileiro com cinco gols, Boselli ou Gustavo. Eventualmente, Carille escala dois centroavantes para tentar aumentar a presença física na área adversária, porém o rendimento do ataque não melhora.

O time ainda depende de momentos das individualidades. Já foi Clayson, Pedrinho, Vital… Quase sempre a regularidade de Fagner, o escape pela direita e a grande referência dessa identidade vencedora. O lateral já tem o modelo de jogo mais que assimilado e exerce liderança natural sobre os companheiros. Peça fundamental que Carille desta vez não terá a infelicidade de perder para a seleção brasileira na data FIFA de outubro.

Mas no triunfo sobre a Chapecoense na Arena Condá com gramado impraticável pela forte chuva, o Corinthians viveu mesmo das defesas de um Cássio iluminado e do gol de bola parada de Danilo Avelar, vice-artilheiro na temporada com sete gols. Sofreu, novamente jogou pouco, mas levou para São Paulo os três pontos que precisava para se recolocar na briga. Nem que a meta realista hoje seja a permanência no G-4.

Porque mesmo em sua pior versão, a identidade vencedora consegue ser competitiva. Carille vai penando, mas seu time pontuando. Nada mais Corinthians nesta década.

 

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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