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Golaço de Dudu no empate frustrante é para o palmeirense refletir

André Rocha

07/10/2019 06h22

Foto: Bruno Ulivieri / AGIF

Mano Menezes não é um defensor convicto do jogo mais físico, direto e pragmático como Luiz Felipe Scolari. Nem da intensidade máxima de Cuca. Na essência, apesar da origem na escola gaúcha, prefere um jogo com mais pausas e organização. Em 2011, ainda comandando a seleção brasileira, elegeu em entrevista a Mauro Beting para o livro "1981", em coautoria com este blogueiro, o Flamengo de Zico nos anos 1980 como a melhor equipe que viu jogar. A grande referência de seus tempos de apenas fã de futebol.

Mas desde 2015 abraçou uma ideia de jogo mais defensiva e reativa. Talvez para se colocar no Cruzeiro como contraponto ao repaginado Tite com proposta mais criativa e agressiva no Corinthians campeão brasileiro e depois na seleção. Ou apenas por conta do contexto do Cruzeiro, especialmente no mata-mata com os títulos da Copa do Brasil de 2017 e 2018.

Agora no Palmeiras sucedendo Felipão, Mano tenta voltar um pouco às origens, fazendo o atual campeão brasileiro adicionar controle  do jogo pela posse de bola quando necessário e também a marcação por zona, evitando os encaixes e as perseguições mais longas. Um estilo mais impositivo e dominante.

Funcionou relativamente bem em casa contra Fluminense, Cruzeiro e CSA, equipes que lutam para fugir do Z-4. Nem tanto fora contra o Fortaleza, já apelando para as ligações diretas em alguns momentos, sentindo muito a falta de Dudu e vencendo na bola parada com gol de Willian.

Mas bastou enfrentar times mais tradicionais e competitivos como Internacional e Atlético Mineiro para o Palmeiras sofrer e, intuitivamente, retornar aos "vícios" dos últimos anos: em Porto Alegre a proposta mais cautelosa até sofrer o gol de Patrick e no Allianz Parque um estilo muito direto, até apressado. Com cobranças de lateral na área adversária e nada menos que 52 cruzamentos.

Dois empates por 1 a 1 que fazem o Flamengo abrir cinco pontos de vantagem no topo da tabela. Na próxima rodada, pedreira contra o Santos na Vila Belmiro. Uma combinação de derrota no clássico paulista com nova vitória do líder sobre o próprio Galo no Maracanã e as chances do bicampeonato ficam bem mais remotas. Mas o momento de frustração pode servir também para uma boa reflexão.

Partindo do gol de empate contra o Galo, depois de Nathan abrir o placar no primeiro tempo de superioridade do time visitante. Bela tabela pela esquerda entre Dudu e Gustavo Scarpa, que saiu do banco para substituir Borja, e a finalização quase sem ângulo do craque do time. Um lance de arte para furar as linhas compactas do 5-4-1 atleticano. Jogada trabalhada com calma, técnica e criatividade.

Não poderia acontecer mais vezes, inclusive no próprio jogo depois da igualdade no placar? Mas o Palmeiras preferiu o jogo apressado, as bolas levantadas na área. A força do hábito simbolizada na troca de Lucas Lima por Deyverson. Para complicar, sim, a formação com três zagueiros do adversário, mas obviamente também para apelar ao jogo aéreo procurando os dois centroavantes. Durou pouco, logo entrou Scarpa.

Os cruzamentos são um recurso legítimo, até porque o estilo funcionou em duas das últimas três edições do Brasileiro. Mas tem que ser só isso quase sempre, ou quando necessário?

Com Felipão era claro que a prioridade era o mata-mata. Não funcionou em duas edições de Copa do Brasil e Libertadores. Nos pontos corridos deu certo meio ao acaso, com o time cheio de reservas e só assumindo a responsabilidade de decidir o campeonato confirmando a liderança depois das eliminações nas outras competições. Conquista inquestionável, com todos os méritos. Mas soou como uma espécie de prêmio de consolação.

Apesar da defesa do estilo entre torcedores, jogadores e diretoria, o incômodo é nítido. Até porque a escola do Palmeiras não é essa, mas a do futebol mais ofensivo e de toque refinado. Dos tempos da Academia nos anos 1960/70 ou do início da Era Parmalat com Vanderlei Luxemburgo no bicampeonato brasileiro 1993/94 e na máquina de 102 gols no Paulista de 1996.

O time do jogo direto, das bolas paradas – ou escanteios e faltas laterais de Jorginho e Eder procurando a cabeça do zagueiro Vagner Bacharel – sempre esteve mais associado à "década perdida", a de 1980 sem conquistas. Da derrota para a Internacional de Limeira no Paulista de 1986. O time de Felipão campeão da Copa do Brasil de 1998 e da Libertadores no ano seguinte era vertical, porém talentoso e combinava os cruzamentos de Arce com a arte de Alex.

O estilo atual merece ser respeitado e dá resultado quando bem executado. No caso deste Palmeiras, porém, com a enorme capacidade de investimento, sempre parece contraproducente. Subaproveita a capacidade do elenco, que não é fantástica, mas pode entregar muito mais. Talvez com tempo para Mano trabalhar esse "fundamentalismo" e acrescentar novos elementos.

Para que a obra-prima de Dudu e Scarpa não seja a exceção, ou apenas uma breve amostragem do que esse time pode fazer e não realiza por opção. Um tremendo desperdício.

(Estatísticas: Footstats)

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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