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É o melhor Flamengo desde 1982. Só precisa de um descanso

André Rocha

11/10/2019 08h10

Foto: Celso Pupo / Fotoarena / Agência O Globo

1981 é o grande ano do futebol do Flamengo. Consenso pelos títulos da Libertadores e do Mundial na época em que a FIFA não se metia com isso. Mas foi no Brasileiro do ano seguinte, disputado no primeiro semestre, que o melhor e maior time da história do clube atingiu a maturidade do jogo coletivo.

A equipe revolucionária que fazia os laterais Leandro e Júnior, mais cinco meio-campistas – Andrade, Adílio, Tita, Lico e Zico – tocarem a bola e se movimentarem com o centroavante Nunes abrindo espaços ou aparecendo para decidir começou sua história nos históricos 6 a 0 sobre o Botafogo em novembro de 1981. Com o Fla já na final da Libertadores e prestes a decidir o Carioca. A rigor foram três grandes exibições coletivas naquele final de ano: além da goleada sobre o alvinegro, os 3 a 1 sobre o Fluminense e, claro, o espetáculo diante do Liverpool em Tóquio.

No Brasileiro do "vira-vira", o time liderado por Zico emendou vitórias sobre todos os grandes concorrentes da época: desde o São Paulo campeão paulista e vice-brasileiro do ano anterior, no Maracanã e Morumbi, passando pelo Atlético Mineiro de Reinaldo, o Corinthians de Sócrates, o Guarani de Careca e Jorge Mendonça e, na final em três partidas, o Grêmio campeão brasileiro e que no ano seguinte venceria Libertadores e Mundial. Campanha irretocável com seis vitórias seguidas no início da competição e apenas duas derrotas em 23 partidas.

Com a conquista nacional, aquele Flamengo conseguia uma espécie de "unificação" dos títulos. Em maio de 1982 era o último campeão da cidade (Taça GB), do Estado, do país, do continente e do planeta. No Brasil apenas o Santos de Pelé alcançou tal feito, em 1962.

É claro que nos últimos 37 anos o Fla teve grandes equipes e viveu momentos de futebol em alto nível. Mas nada comparado ao que o time de Jorge Jesus alcançou nos últimos três meses. Ou desde agosto, depois de um começo com dificuldades naturais, incluindo a eliminação na Copa do Brasil para o Athletico Paranaense.

Uma equipe intensa, com volume e variações táticas. Gerando jogo com todos os jogadores, inclusive o goleiro Diego Alves. Capaz de empurrar os adversários para a defesa mesmo como visitante. O melhor exemplo nos primeiros 45 minutos contra o Grêmio em Porto Alegre, por uma semifinal de Libertadores que o clube não alcançava desde 1984.

Perde a bola e logo pressiona para retomá-la. Toca, mas quase sempre com passes para frente. Uma constante busca pelo gol, independentemente do placar. No ritmo de Gerson, o grande maestro da equipe como um meio-campista moderno que domina as duas intermediárias, muito bem assessorado pelo Willian Arão repaginado por Jesus. Mobilidade, mas organização para que o jogador com a bola tenha sempre, no mínimo, duas opções de passe. Uma por dentro, outra por fora.

Normalmente Rafinha passando no corredor deixado por Everton Ribeiro e o lateral esquerdo, Filipe Luís ou Renê, atacando por dentro com um companheiro mais aberto. Nos 3 a 1 sobre o Atlético Mineiro no Maracanã, o ponteiro foi Vitinho, o substituto do uruguaio De Arrascaeta. Outrora muito contestado, desta vez decisivo com duas assistências e um belo gol. Desarticulando o 5-4-1 atleticano que foi empurrado para trás, mas criou alguns problemas com muita compactação e algumas transições ofensivas bem coordenadas, inclusive no golaço de Nathan.

Desde o revés por 3 a o para o Bahia em Salvador na "ressaca" da classificação nas oitavas do torneio continental contra o Emelec, são dez vitórias e um empate na competição nacional. 25 gols marcados, seis sofridos. O suficiente para abrir oito pontos na tabela sobre Santos e Palmeiras. Pontuação que era a desvantagem para o Alviverde atual campeão em nove rodadas quando Jorge Jesus assumiu.

Consistência em resultados e desempenho que nenhum time rubro-negro entregou em quase quatro décadas nessa amostragem de partidas, incluindo as duas contra o Internacional pelas quartas e a primeira semifinal da Libertadores.

Nem o time campeão da Copa União em 1987, que era um grande conjunto de individualidades – principalmente se analisarmos o que cada um fez ao longo de suas carreiras: Jorginho, Leonardo, Zinho e Bebeto campeões mundiais em 1994; os ídolos eternos Leandro, Andrade e Zico; os multicampeões Aílton e Renato Gaúcho. Mais o goleiro Zé Carlos, convocado para o Mundial na Itália em 1990 e Edinho, zagueiro de três Copas do Mundo. Mas não chegou nem perto de tamanha imposição sobre os rivais.

O campeão carioca e brasileiro em 1991/92 comandado por Carlinhos "Violino" viveu grandes momentos, com uma garotada promissora, os passes de Júnior e os gols de Gaúcho. Longe, porém, da regularidade e da consistência do atual no jogo coletivo. Muito menos o único vencedor na era dos pontos corridos, em 2009, que vivia fundamentalmente do talento de Petkovic e Adriano Imperador em uma arrancada impressionante na reta final da competição.

Falta a este Flamengo marcar a história com grandes títulos. Eles nunca pareceram tão próximos, mas há um grande obstáculo, um inimigo interno: o desgaste. De um elenco que roda pouco pelas circunstâncias. Por perder Cuéllar, negociado, e Diego Ribas, lesionado. Agora sem Filipe Luís e Arrascaeta com problemas nos joelhos e Rodrigo Caio e Gabriel Barbosa a serviço da seleção brasileira. Em breve terá que ceder a revelação Reinier para a CBF no Mundial Sub-17.

Jesus vai se virando com o que tem, recuperando Vitinho e insistindo com os titulares. A maioria das substituições acontece no final das partidas. Contra o Santos não houve tempo para Piris da Motta entrar em campo, diante do Galo foi a vez do jovem Hugo Moura ficar à beira do campo no apito final. O treinador português diz que não gosta de poupar e no seu país, apesar de ser tão querido a ponto de fazer a imprensa de lá cobrir o futebol daqui, costuma ser criticado por não rodar muito o elenco e ter perdido títulos encaminhados por conta disso. Nas palavras do próprio treinador, ele gosta de "colocar a carne toda para assar".

Só que o risco de mais lesões é real, embora ninguém esteja fora por problemas musculares. A tabela oferece uma boa oportunidade de descansar os sete titulares que restaram: jogo contra o Athletico em Curitiba. Porque entre as 22h da quinta e as 16h de domingo serão apenas 66 horas para recuperação. Para depois cruzar o país e encarar o Fortaleza na capital cearense na quarta. E vale arriscar esses pontos com uma equipe reserva, já que Santos e Palmeiras também visitarão o campeão da Copa do Brasil, sempre um adversário complicado em seus domínios.

Se tivesse planejado seria possível até zerar pendurados por dois cartões amarelos. São cinco: Rafinha, Pablo Marí, Willian Arão, Everton Ribeiro e Bruno Henrique. Mas Jorge Jesus quer tudo e quer agora. E pelo que fala nas coletivas será difícil convencê-lo a mudar. É claro que futebol não é ciência exata e o time pode superar o desgaste. Ou acontecer uma espécie de rodízio natural por conta de suspensões, lesões e convocações e o elenco resistir bem. Há qualidade para isso. Mas uma pausa estratégica para reabastecer neste momento, até pela vantagem na tabela, seria saudável para a equipe.

Jesus segue suas próprias leis e é difícil contestá-lo. Afinal, ele entrega um Flamengo que vence e encanta como há tempos não se via no país. E no time mais popular do Brasil desde sua versão mais talentosa e campeã.

 

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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