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A quem interessam os amistosos "tóxicos" da seleção brasileira?

André Rocha

13/10/2019 10h53

Começa na confirmação dos amistosos. Viagem a Cingapura para enfrentar Senegal e Nigéria? Há utilidade? Qual é o objetivo real esportivo desses jogos?

Depois a convocação. Como o calendário brasileiro não pára, o treinador é obrigado a considerar o contexto na hora de fazer uma das tarefas primordiais: selecionar. E mesmo com todo cuidado, que não foi o caso desta vez ao chamar dois jogadores de Flamengo e Grêmio, a crítica vem pesada e a má vontade do torcedor só aumenta.

Com o fuso horário de 11 horas, a seleção joga em uma quinta-feira, dia de trabalho, e no domingo – normalmente de folga, para acordar mais tarde. Ambos às 9h no Brasil. Quem vai assistir, além de apaixonados pela camisa verde e amarela, fanáticos por futebol e quem trabalha com o esporte? Nem o produto está sendo valorizado.

A CBF justifica a marcação dos amistosos em locais "inusitados" alegando que o interesse do público nesses sedes de ver a seleção cinco vezes campeã do mundo é grande. Mas nem distribuindo ingressos em universidades o Estádio Nacional ficou lotado.

Por fim, o campo. Muito calor, gramado questionável e jogadores com a cabeça em seus clubes. A grande maioria acostumada a competir no mais alto nível encarando partidas que nada valem. Além de todos os problemas individuais, coletivos e anímicos que se arrastam desde o início do ciclo depois da Copa do Mundo. Com hiato na Copa América disputada em casa e vencida de forma protocolar, sem um desempenho promissor. Para complicar ainda mais, Neymar se lesionou de novo, desta vez na coxa.

É claro que Tite e jogadores têm responsabilidade pelo fraco desempenho nesta "tour" do outro lado do mundo na data FIFA de outubro. A rigor, de positivo apenas os primeiros 20 minutos contra Senegal e 25 no segundo tempo diante da Nigéria nos dois empates por 1 a 1 que agora totalizam quatro partidas sem vitórias. Só valeu pela luta.

A culpa real, porém, é ou deveria ser por se submeterem a esse escárnio que desvaloriza a seleção e as próprias carreiras. Inclusive começa a colocar em risco a sequência do trabalho da comissão técnica. Ninguém aguenta, ou deveria suportar, esses amistosos "tóxicos" com péssima relação custo-benefício. A quem interessam? Certamente não atendem às expectativas dos grandes protagonistas: os que jogam e o técnico. Os que se expõem. Muito menos do público – imagine a "felicidade" do torcedor do Flamengo com Rodrigo Caio não entrando em campo e Gabriel Barbosa jogando pouco mais de trinta minutos para desfalcar a equipe de Jorge Jesus por duas partidas importantes no Brasileiro.

Mas quem muda o status quo? Onde está a coragem para peitar os que tomam as decisões administrativas? Tite teve a chance em sua fase mais popular, antes do Mundial na Rússia. Se calou e capitalizou em cima. Agora, questionado, tem que se submeter. Valeu a pena? Está valendo? O torcedor já tem a resposta, mas, para variar, a opinião dele só será levada em conta quando atingir o faturamento dos abutres de sempre. Porque é assim que funciona.

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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