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A lenta agonia do Cruzeiro. O que Abel Braga foi fazer em Belo Horizonte?

André Rocha

14/10/2019 06h44

Imagem: Reprodução / Premiere

Este blogueiro até evitou fazer qualquer análise sobre as possibilidades de Abel Braga no Cruzeiro logo depois do anúncio da contratação por conta da incredulidade com o acerto do treinador com o novo clube. Não só pela situação do time mineiro, mas principalmente pela prática quase ritualística de assumir trabalhos apenas no início da temporada. A última vez que aceitou um convite no segundo semestre foi no Fluminense em 2011, mas com promessa de trabalho a longo prazo – ficou até 2013 faturando os títulos carioca e brasileiro.

Abel falou em "dívida" na primeira coletiva, alegando que o Cruzeiro abriu as portas para ele, ainda jogador, em 1981 depois de dois anos no Paris Saint-Germain. Mas nas entrelinhas deu a impressão de aceitar o apelo de jogadores que comandou e com os quais foi vitorioso e criou amizades, como Thiago Neves e Fred. Também pode estar vendo o mercado de treinadores ficar mais restrito com a renovação e chegada de estrangeiros – Abel não foi a primeira opção da diretoria, que chegou a sondar Dorival Júnior e pensar em outros nomes.

Seja como for, o "fato novo" com impacto no vestiário e no campo depois da passagem conturbada de Rogério Ceni, já resgatando confiança e conseguindo resultados rapidamente, não aconteceu. Estreia um dia depois da apresentação com derrota para o Goiás por 1 a 0, depois empates com o Internacional (1 a 1), Fluminense (0 a 0) e o péssimo, frustrante com a Chapecoense por 1 a 1. Com gol sofrido aos 49 minutos do segundo tempo, de Camilo em lance difícil confirmado pelo VAR.

A transformação anímica não veio. Turbulência política, crise financeira, dirigentes sob investigação e confiança baixa também não ajudam, assim como a dívida estimada em 520 milhões de reais. A campanha é vergonhosa: apenas quatro vitórias, dez empates e onze derrotas. 19 gols marcados, 33 sofridos. Antepenúltimo colocado, já quatro pontos e três vitórias atrás do Ceará, 16º . Sem direito ao confronto direto nas 13 rodadas que faltam – empatou sem gols na despedida de Ceni.

O cenário já é desesperador. Porque a competição afunila e no caso do time grande, que nunca caiu, o peso é maior do que sobre os concorrentes. É possível se safar, mas terá que virar a campanha do avesso. Em 13 rodadas é preciso  somar 23 pontos, um a mais do que alcançou em 25 partidas. Talvez a "nota de corte" fique abaixo dos 45. Mas a missão não parece das mais fáceis.

Menos ainda olhando para a tabela: já na próxima rodada pega em Belo Horizonte o redivivo São Paulo, de Fernando Diniz que com um Fluminense enfraquecido deu trabalho a Abel no comando do estelar Flamengo em todos os confrontos no Carioca. Agora os elencos, ao menos no papel, são equivalentes. E o momento do tricolor do Morumbi é bem superior.

Depois visita o Corinthians, recebe o Fortaleza em um confronto direto, sai para novo duelo de "seis pontos" com o Botafogo. Em seguida, Bahia no Mineirão, Athletico na Arena da Baixada, o clássico mineiro, Avaí em casa, Santos fora, CSA em Minas Gerais, visita o Vasco e o Grêmio em sequência para fechar a campanha contra o Palmeiras em casa. Difícil prever os pontos mais acessíveis, porque os confrontos também dependem dos cenários para os oponentes.

É claro que há nesta edição do Brasileiro quatro times para cair no lugar do gigante mineiro. Mas é difícil encontrar esperanças diante da falta de vitórias para quem precisa pontuar tanto. E a perspectiva do rebaixamento é ainda mais assustadora considerando a queda brusca nas receitas de TV. A gestão ficaria praticamente inviável.

Difícil abordar qualquer questão técnica ou tática. Sem tempo para treinar com dois jogos por semana e considerando que Abel mostrou no Flamengo que o conteúdo não está tão atualizado, a esperança era que a gestão de pessoas fizesse a diferença. Mas o discurso conhecido de "meu grupo tem caráter", "a gente resolve lá dentro do vestiário e aqui com vocês (imprensa) eu seguro" e outros clichês parece não ter o impacto de outros tempos.

Agora o time celeste precisa mesmo é de coordenação dos setores, dar menos trabalho ao goleiro Fábio e caprichar no acabamento dos ataques. Mas em momentos de pressão a perna "encolhe", o campo fica imenso e a meta adversária minúscula. Mesmo para um grupo de veteranos. Para piorar, não há orientação segura ou estratégia para dar um pouco de racionalidade ao caos.

O Cruzeiro agoniza lentamente. E este que escreve continua sem entender: que Abel foi fazer em Belo Horizonte?

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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