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Como o VAR piorou (e muito!) o debate sobre futebol no Brasil

André Rocha

16/10/2019 07h11

Foto: Divulgação / CBF

Quando a FIFA confirmou oficialmente o árbitro de vídeo para a Copa do Mundo na Rússia em 2018 parecia ser o início de uma nova era do futebol. Menos erros, mais justiça em um esporte com clubes e seleções investindo cada vez mais em qualidade de atletas e estrutura.

No Brasil demorou um pouco mais e, depois de um impasse sobre os custos da utilização no Brasileiro do ano passado, o sistema foi finalmente implementado. A expectativa era de que os erros de um início de processo fossem diminuindo com o tempo e chegássemos a uma solução rápida e eficiente para minimizar equívocos.

Para este que escreve, também a esperança de que o debate sobre futebol no Brasil ganhasse qualidade, sem a "bengala" da arbitragem para ocupar uma hora e meia de programas de 120 minutos. Com lances repetidos à exaustão e comentaristas, inclusive os ex-árbitros, gastando tempo demais para fugir de um aspecto tão temido por tantos colegas: o jogo em si.

Mas, como diz o "poeta", o sistema… Não é fácil! O VAR no Brasil se tornou um engodo em todos os sentidos. Mexeu na dinâmica do jogo e tirou a emoção do clímax do esporte: o gol. Porque agora todo lance é observado com uma lupa que é inviável em um esporte de contato e com tanta margem para interpretação.

Sem contar as "orientações" da FIFA para a arbitragem que, por exemplo, praticamente acabaram com os critérios para a marcação de um pênalti. Agora é pela cabeça do apitador se houve "movimento natural", ampliação do "volume" do corpo e outros aspectos subjetivos que muitas vezes tratam o defensor como se ele fosse obrigado a arrancar seus braços ao entrar na própria área.

E o pior em todo processo: a transferência de responsabilidade. O auxiliar marca o impedimento já pedindo ao primeiro jogador a reclamar que espere pela confirmação do vídeo. O árbitro, que deveria ser a autoridade máxima, já coloca a mão no ouvido aguardando alguma observação. A equipe do VAR começa então a virar as imagens do avesso, indo e voltando em câmera lenta. Difícil não encontrar alguma coisa.

E quando acha precisa buscar o consenso. Ou convencer o juiz a olhar o monitor. Na tela, de novo as repetições para mudar a visão de quem decide. Até a definição que já foi mais que contaminada por tantos agentes, inclusive a pressão de jogadores, treinadores, dirigentes, torcida…

Agora há mais um elemento: o áudio da equipe do VAR! Vozes não identificadas em conversas que podem ser recortadas fora do contexto para "provar" qualquer coisa. Com mais gente envolvida, mais "suspeitos". E uma arbitragem apenas ruim, até provem o contrário, se torna parte de uma grande teoria da conspiração. Em tempos de redes sociais então…

O resultado prático é que um recurso que vem sendo bem utilizado em outros países, mesmo sem zerar os erros, aqui se tornou um tormento. E o mais triste: jogou o debate sobre futebol em um esgoto nunca antes visto. Porque agora há muito mais a se discutir sobre arbitragem do que o erro ou acerto do juiz ou do assistente. Linhas azul e vermelha, tracejadas, para analisar impedimentos. O tempo de demora para confirmação. Qual contato foi considerado  na marcação de um pênalti. Agora os áudios…

E o jogo? Ora, o jogo! Imagine passar duas horas em um programa sobre futebol falando sobre…futebol! É chato,né? Exige primeiro que se veja o jogo, na íntegra. Depois o conhecimento dos modelos, dos movimentos coletivos das equipes, de detalhes táticos e estratégicos. Dá muito trabalho! Melhor falar de arbitragem e agora adicionar à receita pronta a crítica à existência do VAR. Se hoje decidissem abolir o uso do vídeo alguns colegas precisariam tirar férias…

Agora além da polêmica pela polêmica, do debate raso, da exaltação ao melhor time de todos os tempos da última semana, das comparações descabidas entre passado e presente e, claro, da arbitragem no campo…o VAR e seus muitos problemas de aplicação no Brasil. Fica a pergunta: será que existe a vontade de resolver os problemas e melhorar o uso de uma ferramenta tão valiosa?

Ou é mais cômodo para todas as partes que siga como está? No campo e na cabine, os árbitros ainda mais estrelas do espetáculo. Dirigentes, treinadores e atletas já sabem para onde desviar o foco nas derrotas – ou mesmo nas vitórias, o que é ainda mais absurdo! E muitos comentaristas, jornalistas ou não, seguem priorizando o periférico, mantendo os clichês e falando ainda mais sobre o que deveria ser a intervenção mais discreta e desimportante em uma partida.

Este blog, salvo raras exceções quando muito necessário, seguirá dando espaço ao futebol. Porque ninguém aprende a gostar do esporte por causa de arbitragem. O jogo segue fascinante, se transformando o tempo todo. Evoluindo! Só não vê quem não quer. Ou não sabe. Ou não convém.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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