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Flamengo e Grêmio antecipam no Brasileiro o grande duelo corpo x mente

André Rocha

17/10/2019 12h09

Foto: Agencia Estado

Quando o auxiliar de Rogério Ceni, o francês Charles Hembert, justificou as nove mudanças no Fortaleza por conta da intenção de mandar a campo um time mais "fresco", ficou clara a estratégia do treinador suspenso de tentar vencer o Flamengo na saúde.

Porque Jorge Jesus não faz concessões. É a "carne toda para assar" sempre. O treinador português sempre coloca para jogar o melhor que tem disponível, de preferência com a formação mais ofensiva possível. Na intensidade máxima que o time resistir. Este foi o problema maior durante a maior parte da disputa no Castelão.

O líder absoluto do Brasileirão sentiu demais os cinco desfalques – Rafinha, Filipe Luís, Everton Ribeiro, Arrascaeta e Bruno Henrique, mais ainda o calor cearense, além da umidade e o gramado longe de ser um tapete. Gerson suportou 45 minutos enquanto Jesus tentou encontrar o melhor posicionamento para o camisa oito. Começou com meio-campista central num 4-4-2, depois tentou emular Everton Ribeiro como ponta articulador pela direita e, por fim, se alinhou a Willian Arão à frente de Piris da Motta, o substituto de Lucas Silva que sentiu logo no início da partida.

Apesar da fraca atuação na primeira etapa, o técnico dobrou a aposta ao descansar Gerson e colocar Vitor Gabriel para fazer dupla com Gabriel Barbosa, deslocando Reinier para o lado direito de um quarteto ultraofensivo – Vitinho à esquerda. Sem abrir mão da última linha de defesa avançada e exigindo um esforço ainda maior do já desgastado Willian Arão no meio-campo.

Mas foi na força mental que o Flamengo construiu uma virada improvável. Na confiança em seu modelo de jogo e também que a fase permite acreditar que tudo pode dar muito certo. Mesmo quando as pernas parecem falhar e o desempenho geral cai. No "abafa" com Rodrigo Caio na área adversária para disputar a bola com Quintero que terminou no pênalti convertido por Gabriel Barbosa e participar da jogada ensaiada na cobrança de lateral de Renê, finalizada por Reinier, o "reforço" de última hora negado à CBF para o Mundial Sub-17.

Sim, o VAR…Este que escreve não marcaria nenhum dos dois pênaltis: o de Pablo Marí convertido por Bruno Melo entra na "exigência" atual de que os defensores não tenham braços. Afinal, o que é movimento natural para quem está correndo, controlando o espaço que ocupa, a distância em relação ao adversário e à bola? Difícil interpretar, assim como o de Quintero de costas para Rodrigo Caio… Já em relação às duas bolas em campo é uma irregularidade que poderia ter sido observada pelo árbitro de vídeo, mas a interferência no lance é interpretativa. Ou seja, de novo o recurso que deveria ser uma solução se mostrando um problema. Ou a "bengala" preferida para o derrotado.

O Flamengo venceu e manteve os oito pontos de vantagem no topo da tabela. Confiança no teto para o Fla-Flu, último compromisso antes da volta da semifinal da Libertadores. Ambos no Maracanã. Jorge Jesus esgota as energias de seus comandados, mas há compensações: o time mantém altos níveis de concentração e capacidade de competir. Mantendo o foco no Brasileiro, o jogo pelo torneio continental psicologicamente mantém o seu tamanho real, sem superdimensionamentos. Transita entre "o jogo do ano" e mais uma partida em busca das duas conquistas. Se falhar ainda há uma chance, que não é pequena, de levantar taça em 2019.

Algo que o Grêmio não tem. É a Libertadores ou se contentar em terminar o ano com o título gaúcho. Um efeito colateral da cultura copeira do clube. Após a dura eliminação nos pênaltis para o Athletico na Copa do Brasil, depois de abrir 2 a 0 em Porto Alegre, o time de Renato Gaúcho vai administrando o Brasileiro para não se afastar do G-6 e, se tudo der errado, ficar com aquela última vaga entre os quatro primeiros e se garantir na fase de grupos da Libertadores em 2020.

Depois da vitória sobre o Ceará por 2 a 1 e a goleada sobre o Atlético Mineiro por 4 a 1, a chance de encostar no Corinthians, quarto colocado, seria diante do Bahia na Arena em Porto Alegre. Algo, porém, não funcionou e parece ter muita relação com o aspecto mental. Porque o Grêmio respira Flamengo desde o dia dois de outubro. Ou a partir do momento em que soube que enfrentaria os rubro-negros.

Com a proximidade do confronto derradeiro é natural que a ansiedade aumente e fique difícil se concentrar na outra competição. Na última partida com titulares antes da viagem ao Rio de Janeiro, a provável formação da próxima quarta-feira, com Geromel de volta à zaga, Leonardo Moura na lateral direita, Maicon e Luan no meio-campo. deu errado além do placar adverso diante da equipe de Roger Machado.

"Com cinco minutos eu olhei para o banco e disse: não é a nossa noite. Com 35 minutos eu queria que o jogo terminasse. Perguntei para os jogadores se estavam com as pernas pesadas, disseram que não. Agora, às vezes no jogo se sente outras coisas", explicou o treinador. Pois o Grêmio sentiu a proximidade do jogo mais esperado. Nitidamente. Ninguém quer arriscar nada. Bola dividida, um "sprint"… Como ficar de fora do "filé mignon"?

Os donos da casa nitidamente se pouparam e jogaram em ritmo de treino, com direito a drible de Kannemann na intermediária armando contragolpe para o adversário. O clima no estádio com pouco mais de 13 mil presentes colaborava. Mas para o Bahia era decisão e Roger não abriria de seu modelo fora de casa recuando linhas, defendendo com dez homens em um espaço de trinta metros e acelerando as transições ofensivas com Artur e Elber pelas pontas e Gilberto no centro do ataque. Depois entrou Arthur Caike, que converteu no final o pênalti sobre o lateral Giovanni. Para comprovar no placar o sucesso da estratégia do tricolor baiano.

Na coletiva pós-jogo, obviamente, Renato Gaúcho mais uma vez chamou os holofotes todos pra si e desviou dos problemas do seu time. Criticou a retranca do Bahia, exaltou pela enésima vez a proposta de jogo ofensiva e criticou o futebol brasileiro, só salvando Flamengo, Santos e Athletico, além do Grêmio. Porque o treinador veterano sabe que seus atletas preferiram não correr riscos e de novo o Brasileiro foi relegado a segundo plano.

Mesmo com os enormes riscos de eliminação na Libertadores. O Grêmio vai enfrentar o melhor time do país no momento, dentro de um Maracanã lotado e pulsante, e já começa o jogo com o 0 a 0 que não o favorece por conta do 1 a 1 da ida no Rio Grande do Sul. Sim, o cenário provavelmente terá alguns ingredientes menos dramáticos: o Flamengo deve sofrer ao menos com o desfalque de Arrascaeta e, mesmo que um milagre aconteça e Jorge Jesus conte com todos os titulares, não terá a intensidade e o vigor físico dos titulares como em Porto Alegre. E Renato chega desta vez com um grupo mais completo. Lá pelos 20, 25 minutos do segundo tempo no Maracanã a estratégia pode dar muito certo e seu time sobrar fisicamente.

O confronto, porém, não deixa de ser equilibrado, imprevisível e sem prognósticos. Ou melhor, só um: será o duelo corpo x mente, antecipado nesta quarta dentro do Brasileiro. O Grêmio que vai descansar no domingo, com reservas enfrentando o Fortaleza no Castelão, chegará mais inteiro, porém com o peso de jogar a vida. A vantagem da experiência da maioria do grupo de Renato ao disputar sua terceira semifinal sul-americana consecutiva também carrega o fardo de só superar a meta se alcançar a decisão. O peso psicológico é grande e se fez presente com força diante do Bahia.

Já o Flamengo irá ao Maracanã leve e confiante, embora cansado. É óbvio que pelo resultado conquistado na ida e por conta do alto investimento na formação do elenco, agora a final da Libertadores é uma meta palpável. Mas, a rigor, o feito de voltar a ficar entre os quatro primeiros da América do Sul depois de 35 anos já é considerável. E se vier a eliminação, a conquista do Brasileiro seguirá bem próxima. O Fla-Flu de domingo é o tema do momento e o Grêmio só a partir de domingo, depois das 20h. Sem neuras, nem expectativas exageradas.

No insano calendário brasileiro é impossível ter "mente sã, corpo são". Renato Gaúcho escolhe o fôlego, Jorge Jesus prefere a moral das vitórias. Quem vai levar vantagem no jogaço de quarta-feira?

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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